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21 de maio de 2008

Doces recordações...


Celtic Glasgow 2-3 FC Porto

Taça UEFA 2003
21 de Maio de 2003

Estádio Olimpico, Sevilha (Espanha)

Árbitro: Lubos Mitchel (Eslováquia)

Celtic Glasgow: Douglas, Mjalby, Balde, Valgaren (Laursen 64m), Agathe, Lambert (McNamara 75m), Lennon, Thompson, Petrov (Maloney 104m), Larsson e Sutton.
Suplentes não-utilizados: Hedman, Sylla, Fernandez e Jamie Smith.
Treinador: Martin O'Neill.

FC Porto: Vítor Baía; Paulo Ferreira, Jorge Costa (Pedro Emanuel 70m), Ricardo Carvalho e Nuno Valente; Costinha (Ricardo Costa 8m), Maniche, Deco e Alenitchev; Derlei e Capucho (Marco Ferreira 97m).
Suplentes não-utilizados: Nuno, Tiago, César Peixoto e Clayton.
Treinador: José Mourinho.Marcadores: Derlei (45m), Larsson (47m), Alenitchev (53m), Larsson (56m) e Derlei (114m).

É um lugar-comum afirmá-lo, mas recordar é viver. Foi há 5 anos. 21 de Maio de 2003. O dia mais marcante da minha vida desportiva. Sevilha, engalanada, recebia de braços abertos a final da UEFA. Os contendores chegavam à final escoltados por hordas de adeptos sequiosos de vitórias...

Era, até hoje, um segredo meu. Partilho-o com vocês. É nestas imagens que eu me refugio, quando o pesar de um mau resultado, ou simplesmente a nostalgia de um momento me provoca saudades. É um bálsamo milagroso...

Ouvir os comentários, reviver imagens já vistas milhares de vezes, mas sentindo ainda hoje a pele arrepiada de emoção. Eu estive lá. E isso, confesso, marcou-me para toda a vida. O ambiente de festa. A canícula infernal. A folia escocesa. O ar electrizante. A expectativa. E o jogo...

E que jogo. Intenso. Recheado de punhados de bom futebol. Jogadas magistrais. Toques sublimes. Um Deco brilhante. Mágico. E uma equipa, ostentando aquelas listas verticais, decoradas com azul e branco, lutando contra todas as adversidades...

As lesões. Os golos cirúrgicos do adversário. O prolongamento injusto. O sofrimento atroz. Até aquele momento. O corpo a levantar-se na bancada, acompanhando com fervor a jogada de Marco Ferreira. A bola, saltitante, provocadora, passeando na área do Celtic. E Derlei, sempre ele, aparecendo veloz, rematando com fúria. Um remate de todos nós. De todos os portistas que, ali em Sevilha, ou em qualquer lugar deste imenso planeta, olhos colados no ecrã da tv, desejavam aquele momento...

A explosão de alegria foi algo de animalesca. Toda a pressão extravasada num único grito. GOLO!

A Europa rendia-se ao poder do Dragão. E isso, por muito que tentem, nunca nos tirarão...


ps: foto retirada do Bibó Porto

13 de dezembro de 2007

Conquista do Mundo

Pois, o tempo parece passar a voar. Foi a 13 de Dezembro de 1987. Faz hoje vinte anos. O Porto preparava-se para conquistar o planeta, meses depois de vencer a sua primeira Taça dos Campeões Europeus, no Prater, vencendo o arrogante opositor germânico.

Isto de reviver êxitos passados tem algo de contraproducente. A memória desfia as pequenas histórias, as lembranças assaltam-nos, quase como se o jogo tivesse sido ontem. Duas décadas passadas, mas o amor clubista continua idêntico, aceso, pletórico de força e crença, cada vez mais imbuído na mística única do clube...

16 anos na altura, ansiedade em alta, como se ainda precisasse de me beliscar por aquilo que nos estava a acontecer. Meses de orgulho, ostentando os galões de Campeões da Europa, contando pelo calendário os dias que faltavam para arrecadarmos algo inédito em Portugal: o título, oficioso, de CAMPEÃO do MUNDO. Noite mal dormida, povoada de sonhos e pesadelos, naquela fronteira ténue entre a glória e o fracasso. O despertar estranho, noite cerrada lá fora, o frio que enregelava os ossos, o ar fantasmagórico do meu pai, sentado no cadeirão, os olhos fixos lá longe, em Tóquio...

E as nossas cores, vestidas por verdadeiros guerreiros, lutando num manto de brancura, essa neve alva, obstáculo quase intransponível, tornando difícil o mais simples gesto. E eles lutaram, com a respiração a sair em bafos visíveis da boca, os corpos entorpecidos de frio, que se entranhava, que se sentia, palpável, como se possuindo vida própria...

Lembro-me dos gritos, quando Gomes marca o 1º, numa disputa de bola surrealista, sobre a linha de golo. A euforia esmagada pelos avisos do meu pai: "olha os vizinhos. Cala-te". E eu sem querer saber. Queria gritar bem alto o nome do clube.

Depois veio o empate. Os uruguaios, homens duros, secos de carnes, tenazes na luta pelo ceptro, adiando o sonho de milhões, como eu expectantes, frente a um televisor. O prolongamento, qual suplício para eles, desgastados, à beira da exaustão, mas ainda de pé, segurando na flâmula azul e branca, mantendo viva a esperança. E as lágrimas que brotaram facilmente, quando Madjer, o mágico, recebe um passe e com aquela destreza única, quase sobrenatural, faz a bola sobrevoar o adiantado guarda-redes adversário.

E esta, pedaço de couro por momentos dotada de consciência, sadicamente deslizando para a baliza deserta. Cada vez mais devagar. Lentamente. Rindo-se dos sobressaltos que provocava. Devagarinho. Devagarinho. Até que entrou. E eu gritei. Eramos CAMPEÕES do MUNDO!





ps: Vídeo gentilmente cedido pelo Bibó Porto

27 de maio de 2007

O dia em que tudo mudou!

Foi o dia da nossa emancipação. Até ali, até aquele dia 27 de Maio de 1987 éramos um clube simpático, que lutava para se impor, numa hegemonia do futebol português até então ainda dominada pelos grandes de Lisboa. As pancadinhas nas costas, os elogios proferidos com um tom paternalista eram, para mim, o pior dos insultos. O Porto era visto com condescendência. Como um parente afastado, tolerado de quando em vez. Até aquele dia. O trajecto começou bem antes. Pensado e delineado por dois homens, umbilicalmente ligados aos sucessos seguintes. Um, Pinto da Costa, ainda hoje se encontra a liderar, e bem, os destinos do clube. O outro, José Maria Pedroto, foi atraiçoado por uma doença, minando a vitalidade e a vida. O sucesso daquele dia foi também dele.


Podia recordar vários momentos chave, que ajudaram à chegada a Viena. A memória, mesmo 20 anos depois, ainda retêm episódios, lances, pequenas peripécias. Escrevo sem “rede” para me amparar. Ao sabor das recordações. Como um teste. Rabat Ajax. Uma obscura equipa de Malta, goleada sem qualquer remorso por 9-0. Lembro-me do Vitkovice, o campeão da Checoslováquia, a única equipa a conseguir derrotar-nos nessa caminhada até ao topo. O 1-0 averbado em terras checas foi rectificado nas Antas, por um concludente 3-0. Os quartos de final com o desconhecido Brondby, onde pontificava um gigante louro na baliza, chamado Peter Schmeichel. Jogo nas Antas, resolvido perto do fim pelo génio de Madjer. 2ª mão sofrida, com Juary a sair do banco e a restabelecer a igualdade a 1, carimbando a passagem para as meias. Pareciam intransponíveis. Dinamo de Kiev, o detentor da Taça das Taças e a base da Selecção russa (na altura, Kiev ainda era russa) que tinha brilhado no Mundial de 86. Jogo épico nas Antas, afastando temores, vencendo por um escasso 2-1. E o sofrimento, durante 15 dias, que nunca mais passavam. E aquele jogo, num estádio repleto e confiante numa fácil vitória contra o Porto. Numas férias da Páscoa. Um início de sonho. Celso a rematar, num livre, a bola a embater na barreira e a ultrapassar a linha de baliza. A primeira explosão de alegria. Era possível ir à final. Sentir novamente as emoções de 1984, contra a Juventus. Gomes, uma das glórias portistas, a fazer, bem ao seu estilo, o 2-0, num canto. Estava feito. Tinham passado apenas 10 minutos de jogo. Pese a reacção russa, o golo que reduziu a desvantagem e alguns (muitos) momentos de aperto, o sonho tinha-se materializado. O Porto estava na Final!!!


27 de Maio de 1987. O dia em que ganhamos consciência de que tudo era possível. Tínhamos entrado, por direito próprio, num patamar restrito, apenas destinado aos melhores. 4ª feira longa, interminável, em que as aulas se sucediam, uma após outra, com a cabeça a recusar qualquer participação voluntária em algo que não o Porto. Divagava, lá longe, em Viena, acompanhando os heróis de então. Finalmente, em casa, a ver o jogo, tolhido de um nervosismo brutal. O golo germânico, que aumentava a soberba teutónica, amplamente difundida antes do jogo. E aquela segunda parte. Nomes desconhecidos no futebol europeu, comandando a seu bel prazer o jogo, empurrando o Bayern para a área. Vagas sucessivas de ataque, esbarrando num intransponível muro alemão, coeso, sólido, parecendo inultrapassável aos meus olhos. A jogada que me fez desesperar, blasfemar contra os infortúnios de futebol. Uma das mais belas de sempre. Futre a fintar meia equipa do Bayern e a bola, caprichosamente, a sair a centímetros do poste. Parecia que os Deuses nada queriam connosco. Parecia, pois do nosso lado existia um argelino ressabiado. Contra a prepotência alemã, que tinha afastado a sua Argélia, no Mundial de 66. Vingou-se, com requintes de malvadez. Frasco a iniciar a jogada, Juary a conseguir, num esforço titânico, centrar a bola e ele, com a baliza à sua mercê, não se limitou a marcar. Não. Marcou, humilhou e entrou para a história, com um dos mais belos golos de que há memória. De calcanhar. O aparentemente intransponível muro germânico tinha sofrido uma brecha. Gritava eu, tomado de uma alegria incontrolável, perante o ar atónito da minha mãe, quando Madjer resolveu que não era suficiente. Hoje, quando se fala de fintas, associa-se o tema a Cristiano Ronaldo. Na altura, arte, invenção e magia eram os nomes do meio de Rabat Madjer. Pela esquerda, um nó cego, um centro primoroso e a bola a pairar, suavemente, direita aos pés de Juary. Ironia das ironias. Um brasileiro de cor, franzino, abatia os gigantes arianos teutões. A história vingava-se também, ajustando contas antigas. Estava feita a reviravolta, perante a estupefacção de milhares no Estádio e milhões nos lares. E eu, que me ria, chorava, gritava, incapaz de suster a torrente de emoções distintas que me assolava. Foram mais de 10 minutos num sofrimento inaudito. Esperando, impaciente, que os comandados de Artur Jorge resistissem ao assédio alemão. E o final. A alegria incontrolável. A vontade de berrar, bem alto, o nome do Porto. Foi o que fiz, noite dentro, comemorando um feito que julgava inatingível. O dia seguinte, após uma noite mal dormida, a corrida até ao quiosque mais próximo, procurando notícias, que de alguma forma me recordassem de que aquilo não era um sonho, mas a realidade. E eles continuam cá em casa, testemunhas silenciosas, de papel amarelecido pelo tempo, de uma jornada inesquecível. O orgulho de no dia seguinte, em pleno Liceu, aparecer de cachecol a pescoço, com as cores da vitória: Azul e Branco!


Tínhamos alcançado o Olimpo!

O percurso até à final:

1ª eliminatória:FC Porto-Rabat Ajax (Malta) 9-0(Gomes 20m, 49m, 69m, 83m, Eloi 25m, Madjer 54m, André 60m, 65m, Celso 80m)

Rabat Ajax-FC Porto 0-1(Sousa 80m)

2ª eliminatória:TJ Vitkovice Ostrava (Checoslováquia)-FC Porto 1-0(Sourek 24m)

FC Porto-TJ Vitkovice Ostrava 3-0(André 5m, Celso 26m, Futre 82m)

1/4 final:FC Porto-Brondby IF (Dinamarca) 1-0(Madjer 71m)

Brondby IF-FC Porto 1-1(Steffenson 36m - Juary 74m)

1/2 final:FC Porto-Dinamo Kiev (União Soviética) 2-1(Futre 48m, André 57m -Yakovenko 74m)

Dinamo Kiev-FC Porto 1-2(Mikhailichenko 13m - Celso 3m, Gomes 11m)

Final da Taça dos Clubes Campeões Europeus 1986-87

F. C. Porto vs Bayern Munique
Data: 27 de Maio de 1987

Local: Estádio Prater (agora Ernst Happel) - Viena (Áustria)

Árbitro: Alexis Ponnet (Bélgica).

FC Porto: Mlynarczyk; João Pinto, Eduardo Luís, Celso e Inácio; Jaime Magalhães, André, Sousa e Quim; Futre e Madjer.

Treinador: Artur Jorge

Substituições: Ao intervalo, Quim por Juary; 65m, Inácio por Frasco.

Suplentes não utilizados: Zé Beto, Festas e Casagrande.

Bayern Munique: Pfaff; Eder, Nachtweih e Pfluegler; Winklhofer, Flick, Matthaeus e Brehme; Koegl, Hoeness e Rummenigge.

Treinador: Udo Lattek.

Substituições: Aos 81m, Flick por Lunde.

Suplentes não utilizados: Aumann, Willmer, Bayerschmidt e Kutschera.

Marcadores: 1-0, Koegl (24m); 1-1, Madjer (77m); 1-2, Juary (79m).

26 de maio de 2007

Reencontro com a história



"Inesquecível, …mas não digam irrepetível”. O mote tinha sido dado no final da época anterior, com a conquista da UEFA. Mourinho tentava mostrar que, se tinha sido um feito fantástico conquistar uma competição europeia, o Porto, e fundamentalmente os seus adeptos, não deveriam ficar saciados com isso. Deveriam almejar mais. E a época 2003/04 encarregou-se de provar quão sábias eram as palavras dele. Eu, que tinha vivido uma epopeia, a realização de um sonho, em Sevilha, estava longe ainda de imaginar que sofreria novo desfalque na conta bancária. Foi uma caminhada difícil. A fase de grupos, iniciada com uma igualdade fora, com o Partizan, teve, logo de seguida, uma derrota caseira com o Real Madrid. O Porto chegava à 3ª jornada com a necessidade imperiosa de vencer ou, pelo menos, não perder, na deslocação a Marselha. Curiosamente, os destinos de Mourinho viriam a cruzar-se, mais tarde, com uma estrela emergente que despontava na equipa francesa: Drogba. Julgo que foi aí, nesse jogo, que o Porto deu o 1º sinal de que seria possível ombrear com os tubarões europeus, na conquista do principal ceptro de clubes. Lesão grave de César Peixoto, reviravolta no resultado e uma vitória saborosa e de enorme importância. Os dois jogos seguintes, ambos ainda no mítico Estádio das Antas, foram vencidos, contra o mesmo Marselha e o Partizan, carimbando desde logo o passaporte para os oitavos de final. O último jogo, em Madrid, serviu apenas para comprovar que o Dragão se tinha tornado num caso sério a nível futebolístico. Empate no reduto madrileno e 2º lugar no grupo.

Oitavos de final. Reencontro com Alex Ferguson, depois do Porto ter eliminado, em 1984, os escoceses do Aberdeen, nas meias da Taça das Taças. Jogo épico no Estádio do Dragão, com os 2 golos de McCarthy a colorirem uma das melhores exibições que aquele Estádio já assistiu. Resultado escasso, para tantas oportunidades, mas a certeza inabalável que, apesar da escassez do 2-1, o Porto tinha armas para disputar a eliminatória até ao fim. E foi isso mesmo que fez. Num daqueles ambientes típicos de Inglaterra, com cânticos fervorosos, o Porto chegou aos 89’ a perder por 1-0, resultado que cerceava o sonho de chegar mais longe. E eu em casa, descrente, frustrado, amaldiçoando a sorte. Até que…
Era isto o Porto de Mourinho. Fé. Mística. A capacidade de tornar os sonhos em realidade. Livre marcado de forma raivosa, com poder de explosão, pelo sul-africano que ambicionava jogar naqueles palcos. Defesa incompleta de Tim Howard, e Costinha a aparecer, de forma felina, empatando e proporcionando um momento de pura loucura. No Estádio. Em minha casa. Em qualquer cantinho deste imenso Planeta, onde existisse um portista. Estavamos nos quartos-de-final, por direito próprio.

Cliente seguinte, Lyon. E que bela equipa esta a que defrontamos. Para mim, o adversário mais difícil na caminhada até Gelsenkirchen. Jogo táctico no Dragão, com dois golos cirurgícos, num jogo de raras oportunidades de golo. A codícia de Deco e o domínio aéreo e imperial de Ricardo Carvalho deram ao Porto uma vantagem confortável para a 2ª mão. Se dúvidas houvesse quanto ao nosso apuramento, foram dissipadas aos 3 minutos de jogo, com um golaço de Maniche. Apesar da reacção do crónico campeão francês, o Porto saiu da partida com uma igualdade a duas bolas. Exultante, eu fazia contas ao adversário das meias-finais. O Milão, acreditava eu. Estava profundamente errado. Os azuis e brancos da Corunha não estavam de acordo. Aviaram os italianos por 4-0 e prepararam-se para receber os vizinhos do Norte de Portugal.

Nas meias-finais, o momento que importa reter. Corunha. 2ª mão. Eliminatória sem golos até ao momento. O mágico resolve fazer um slalom, por entre os adversários. Cheio de elegância, passa por um. Contorna o segundo. Engana o terceiro. É derrubado. Grande penalidade. O momento chave da partida. E quem é que conseguia estar quieto em casa? Nem sentado, nem em pé, nada acalmava este coração sofredor que, apesar de ser ateu, rezava preces a todos os Deuses conhecidos. Derlei, regressado de uma lesão gravíssima, parte resoluto para a bola. Suores frios. Pulsações assustadoramente arrítmicas. GOLOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO. Final, estávamos na Final. Mais um sonho que se tornava realidade. Vêem agora porque é que eu idolatro Mourinho?

Contas feitas e cerca de 800 € a serem precisos para embarcar em direcção ao meu destino. E o meu pai, que me perguntava do outro lado do telefone: “É caro, Paulo. Não vais, pois não?”. Mas acham que perderia uma final do Porto por dinheiro algum? 2500 klm depois, lá estava eu, em Gelsenkirchen, maravilhado com a arquitectura teotónica, passeando por uma cidade preparada para a festa. E que diferença na organização do jogo, para quem foi a Sevilha. Autocarros disponibilizados aos adeptos, para visitarem os principais pontos turísticos, com guias a servirem de cicerones. Amplas áreas verdes em redor do Estádio, onde não faltavam os tradicionais grupos de música, com sardinhas e vinho à mistura. Estranhamente calmo, para quem, um ano antes, em Sevilha, tinha estado várias vezes à beira do colapso nervoso, ansiava pelo momento em que Jorge Costa ergueria a Taça dos Campeões, 17 anos depois de Viena. Sim, porque nem me passava pela cabeça que o Porto não vencesse o Mónaco. Sim, os aburguesados franceses tinham eliminado o Real Madrid. E o Chelsea. Mas isso não assustava ninguém.

E o jogo que não havia meio de mostrar a superioridade portista. E o Giuly, que aparece isolado, logo no início. E o Baía, dando mais uma bofetada de luva branca nos seus detractores, resolvendo a situação. E o grito, que ansiava por sair, reprimido na garganta, minuto após minuto. Até que, numa aparentemente inofensiva jogada, a bola sobra para Carlos Alberto. E o puto brasileiro, num remate acrobático, deu expressão ao sonho de tantos. Perpetuou o nome na história do Porto. A bola que se anichava nas redes, o grito que finalmente, livre de amarras, se soltava. E os cânticos que se arranjavam, cumplicemente, nas bancadas: “somos nós, somos nós, os Campeões da Europa somos nós”. Sim, não passava na cabeça de ninguém que a Taça não viesse até Portugal. O resto da história já vocês sabem. Deco e Alenichev não deixaram que o nervosismo se instalasse, resolvendo o jogo antes dos 20 minutos finais. E assim, a festa começou cedo, não moldada no sofrimento de Sevilha, mas na crença de que assistíamos à consagração de uma GRANDE equipa. E de um EXCELENTE treinador. Tudo fruto de um FANTÁSTICO presidente. Capítulo encerrado. Mas, parafraseando Mourinho, “foram dois anos inesquecíveis, mas não irrepetíveis”. Havemos de voltar ao Olimpo, esse lugar mítico onde habitam apenas as Lendas do Futebol.

21 de maio de 2007

O dia em que vencemos Deus!

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Quatro anos? Já passaram quatro anos? A marcha inexorável do tempo não perdoa. Mas, apesar dos anos, as imagens ficaram, gravadas de forma indelével. 21 de Maio de 2003. Uma data que entrou para a história do futebol português, em geral, e do Porto, em particular. Nesse dia, tórrido por sinal, o Porto ergueu, nos céus de Sevilha, a 1ª TAÇA UEFA conquistada por um clube português.
Engraçado como cerca de 1500 dias depois, as memórias fluem naturalmente. Tinha prometido a mim mesmo, no final da emocionante final com o Bayern, no longínquo ano de 1987, que estaria presente na próxima final em que o Porto participasse. Desse por onde desse. Cumpri a promessa. Bilhete para o jogo + avião=750 €. Há quem considere um absurdo. Não sabem do que falam. Pagava o dobro. Ou o triplo. É um dia que está gravado, que nunca esquecerei. Às vezes, dou lá uma saltada. Só para minha diversão. Vou aquele cantinho no meu cérebro, onde guardo as memórias desportivas, e delicio-me. É um luxo ver à distância, na terceira pessoa:
“Dormi mal. Sono penoso, a ansiedade que me tolhia o estômago, a cabeça que criava, sem cessar, mil cenários catastróficos. Levantei-me às 5 da manhã. Com dificuldade, lá consegui comer alguma coisa. O nó que me tolhia a garganta não dava mostras de abrandar. Viagem até ao aeroporto, no meio de uma noite que dava lugar ao dia. Fantasmagórica paisagem. Sem carros, como se eu acelerasse num sonho. Não se via vivalma nas ruas. Chegada ao terminal e primeiro impacto. Milhares de pessoas, emprestando um colorido único à paisagem urbana. As amadas cores azul e branca, orgulhosamente trajadas. Uma atmosfera que fez disparar os níveis de adrenalina. Lembro de pensar, na altura: porra, com este apoio não podemos perder!. Check in despachado, viagem de avião sem sobressaltos e o segundo impacto, ao aterrar em Sevilha. Se alguém empunhasse um cartaz, a dizer BEM VINDOS AO INFERNO, era apropriado. 9 da manhã e um calor d-i-a-b-ó-l-i-c-o! Embarque no autocarro, curta viagem até ao centro de Sevilha e terceiro impacto. A cidade tinha sido, literalmente, invadida pela Escócia. Meu Deus, são milhares e milhares e milhares e milhares. No meio do verde e branco, pequenas manchas de adeptos portistas. E o calor, que não abrandava. De calções, só, e transpirava abundantemente. Resolvi conhecer a cidade. Entrei num táxi, negociei o preço num espanhol que faria Cervantes dar voltas ao túmulo e fui ver as vistas. Impressionante a Giralda, a Catedral que é um dos orgulhos da cidade. Ao meio-dia desisti. Era impossível estar tanto calor. Mas estava! Refugiei-me num pequeno restaurante. Uma mesa vazia, qual oásis convidativo, no meio de uma enchente de escoceses. Peito insuflado de ar, avancei destemido, sentindo-me um qualquer cowboy a entrar num saloon cheio de malfeitores. Não havia lugar a receios. Mal me sentei, fui presenteado com uma caneca de cerveja. Um escocês calvo, rubicundo, de rosto alegre, dava o exemplo de sã convivência que deve imperar no desporto (excepto com os benfiquistas, claro). Hi, mate, how are you?. E pronto. Um pedaço bem passado. Perguntas sobre o Algarve, as mulheres portuguesas e uma certa inveja que me assolou. O grupo que acompanhava o escocês (o nome ficou perdido algures) estava à 4 dias em Sevilha. Próximo destino, com permanência de uma semana: Algarve. Capacidade financeira que goleava a minha! 2 da tarde. Era possível que o tempo aquecesse ainda mais? Sim, era. Destino seguinte: El Corte Inglês e um abençoado ar condicionado. Às 4, autocarro para a Ilha Cartuja e para o Estádio. Finalmente, quarto impacto. Milhares de portistas, numa fila imensa, aguardando a hora de entrada no Estádio. Merchandising comprado, fila integrada e um olhar aterrado para o termómetro que, altaneiro, gozava com os comuns mortais: 45 graus!!!!
Na fila, uns lugares à frente, Nuno Marçal, mostrando a sua costela de Dragão. Lá dentro, no bar, bem à minha frente, Rudolfo Reis, distribuindo sorrisos. Abasteci-me de água (a minha salvação, estou certo) e entrei. Animação a rodos. Participei na festa. Esqueci o calor, o cansaço que teimava em aparecer e gritei. Pelo Porto. A ansiedade aumentava. Faltava pouco. Entraram as Las ketchup, cantando o hit da moda, o Asereje. Corpos suados, dançando nas bancadas, numa manifestação de alegria incontida. Finalmente, chegou a hora. A bola começou a rolar. E o que interessa reter são os golos. Lembro-me do 1º, quase no final da 1ª parte, dominada por inteiro pelo Porto. Um cruzamento largo, um remate do Mágico, a defesa incompleta e o Ninja (o verdadeiro, não a réplica que joga no Benfica) a empurrar para o fundo das redes. Berrei desalmadamente. Estava feito, pensava eu, o mais difícil. Agora a música ia ser outra. E foi. Logo no início da 2ª parte, primeiro remate dos escoceses e o golo do empate. O King of the Kings, como lhe chamavam os escoceses. Henrik Larsson himself. Balde de água fria, no sentido figurado. 10 minutos depois, Deco, com um passe magistral, isola Alenichev. Levantei-me, rezando: não falhes, não falhes. O russo fez-me a vontade. Senti uma alegria imensa a invadir-me. Participei na loucura colectiva que se instalou nas bancadas. Sol de pouca dura, também em sentido figurado. Porra, já vos falei que estava calor? Um minuto depois, cirúrgico, letal, um sueco mais moreno do que o habitual, incendiou a imensa falange de apoio dos católicos escoceses. 2ª remate, 2ª golo. Mais do que o azar ou sorte, pensei que uma qualquer conjugação cósmica nos fosse tirar a vitória. Depois, assustado, lembrei-me de algo: eles são os católicos, lutam insanamente contra os protestantes do Rangers, devem estar protegidos por Deus. Ora bolas, com um apoio destes não temos hipóteses. Prolongamento, eu exaurido de fome, sede e um cansaço que pesava toneladas. A imagem que retive do prolongamento, faltavam 5 minutos para os penaltys. Um passe para o Marco Ferreira (não aquele que se arrasta no Benfica), a saída temerária do guarda-redes do Celtic, a bola que sobra para Derlei e eu a gritar golo, antes de ele ter chutado. Juro. Histericamente, gritei, abracei desconhecidos, chorei de alegria. Sim, chorei. Foram os 5 minutos mais penosos da minha existência. Longos, parecendo que o ponteiro do relógio se divertia com o sofrimento alheio, arrastando-se eternamente. O coração que batia descompassadamente, o medo de novo empate, os pensamentos mais absurdos que afluíam à cabeça e o apito. Estridente. Um som agudo. O som mais belo do Mundo. Acabou. Olhei para o céu. Vencemos Deus. Se fosse uma cruzada, os católicos tinham perdido. O resto…uma imensa alegria. Foram 27 sem dormir, 14 horas sem comer, desde aquele almoço rodeado de escoceses, mas VALEU A PENA!”


E foi assim. Um dia inesquecível. Mas como Mourinho dizia, “inesquecível, mas não irrepetível”. E eu, longe de saber que um ano depois, embarcava para Gelsenkirchen…