31 de julho de 2008
Porque hoje é 5ª...
12 de março de 2008
O Zé do Boné
Estava eu, num belo dia, sentado no sofá, a matutar - ou deverei dizer, a desesperar? - sobre o próximo artigo para o blog quando, vinda sabe-se lá de onde, ela surgiu, luminosa: a Ideia!Deixando-me de lamentações, o trabalho está feito, parcialmente é certo, mas desbravando os escombros do passado, trazendo para a luz da actualidade rostos, nomes e acontecimentos que merecem ser perpetuados. Se, na imensa panóplia de nomes, a escolha de um ou outro encerra motivos subjectivos, existe um que me parece ser de todo consensual. Confesso que senti um friozinho na barriga quando decidi escrever sobre ele, esse nome que ainda hoje é proferido, com um fervor religioso, pelo meu pai. Todos já terão, por certo, ouvido falar no "Zé do Boné"...
José Maria Pedroto, o homem que nos fez ultrapassar o nosso Adamastor, a Ponte D. Luís. Aquela fronteira cruzada, de forma inexplicável, com o espectro da derrota a abater-se sobre a equipa. O grande problema era por onde começar...
Pedroto não é Mourinho. O special one foi um meteoro, poderoso, que se cruzou nos nossos céus. Abanou mentalidades, deixou marcas profundas no seu impacto mas... pufff... desvaneceu-se, numa noite de Maio, desaparecendo acompanhado pelo seu ar carrancudo e rezingão.
A história de Pedroto não é uma estória. A vida dele cruza-se, variadas vezes, com a do clube, sempre marcante, deixando cicatrizes profundas. Começando pelo fim, pode dizer-se, com toda a propriedade, que Pedroto é o pai deste Porto. Do Porto moderno. Do Porto que vence compulsivamente. Foi ele, personagem polémica [e não é assim, com todas as que se prezam?], mas indomável na defesa das suas causas, que criou um hábito, enraizado até hoje: o de VENCER! O Porto desempoeirado, capaz de assumir a sua grandeza sem qualquer espartilho psicológico, afastando os seus fantasmas, que tolhiam inexplicavelmente os jogadores em alturas decisivas. Com Pedroto, o Porto ganhou nova vida, um novo alento.
Por uma daquelas coincidências do destino [será mesmo coincidência?] Pedroto nasceu na freguesia de Almacave, local onde centenas de anos atrás D. Afonso Henriques realizou as primeiras Cortes para a fundação de Portugal. Simbolicamente, Pedroto nasceu num local que lhe moldou os genes. À Conquistador. Foi em 1960 que Pedroto "aterrou" no banco portista. Como treinador da equipa de juniores. Fadado para a glória, desde cedo fez mossa nos adversários, conquistando um inédito Torneio Internacional de Juniores da UEFA. Começava a carreira do "Mestre", nos bancos...
Académica, Leixões e Varzim beberam a sabedoria de Pedroto, até 1966, com o regresso deste, messiânico, ao banco do seu clube do coração: o FC PORTO! Ganhar era a sua sina. E ele fê-lo. Enumerar aqui, neste espaço, todos os episódios marcantes de Pedroto, seria demasiado fastidioso para o leitor. Deixo dois momentos, quiçá aqueles que me ficaram gravados, a fogo, na minha memória impressionada de menino, quando o meu pai me contava histórias à lareira:
Resgatado ao Boavista, onde treinara exemplarmente os axadrezados, Pedroto voltou ao Porto, dizendo o que lhe ía na alma. "Chegou a altura de estarmos de sobreaviso e verificar que a infelicidade dos árbitros já ultrapassou os limites e que, eventualmente, tenhamos de adoptar medidas de autodefesa, mas que possam definitivamente acabar com o gozo a que vamos estar sujeitos por aqueles que gozam com as grandes penalidades que nos são sonegadas e os golos irregulares que nos são marcados. Trata-se, realmente, de um gozo humilhante e que em defesa da nossa dignidade não poderemos deixar que continue". Como se constata, 3 décadas depois, o mesmo discurso poderia ser aplicado ao futebol português. Visionário, o Zé do Boné sabia bem os escolhos que era necessário ultrapassar, para fazer do Porto campeão. Pedroto morreu numa fria manhã de Janeiro, corria o ano de 1985. Está sepultado no cemitério de Agramonte, no mausoléu do clube que sempre amou.
26 de dezembro de 2007
Um conto de Natal

“Não faz mal…você não teve culpa…eu é que me distrai com a conversa daqueles dois estafermos…”, e lançou um olhar furibundo sobre os ajudantes, que se apressaram a desaparecer por detrás da montanha de prendas.
23 de setembro de 2007
Ser portista
O que é ser portista? Como, onde, porquê, começou esta paixão tão arrebatadora? Quando é que cada um de nós foi tocado pelo Divino, num fenómeno tão metafísico, quase como se de uma conversão religiosa se tratasse?
Todos nós teremos experiências similares…ou nem por isso. Não será exagerado de dizer, nem de afirmar, mas acredito piamente que já nasci Dragão. Não é um exercício muito especulativo, dado que os genes foram passados, na minha família, de geração em geração. De avô para pai, deste para mim, perpetuado agora em dois rebentos, já sócios, sentindo desde a nascença o orgulho, a responsabilidade, mas também o fardo, de pertencerem não a um clube, mas a uma forma de VIDA.
Confesso que, no meu caso, era com algum espanto que via o meu avô, religiosamente colado a um transístor, aos Domingos, com a avidez estampada no rosto, bebendo concentrado as palavras que as ondas hertzianas traziam até ele. Eu, petiz, vivendo ainda num mundo de fantasia, imerso em brincadeiras próprias da infância, estranhava o comportamento de homens maduros, capazes de praguejar entre dentes, murmurando preces, vendo-os explodir, umas vezes em manifestações coléricas, com o ódio espelhado no olhar. Outras, parecendo que regrediam na idade, pulando de felicidade, punhos cerrados, gritos roucos que se soltavam de gargantas ressequidas. E a palavra mágica, a que comecei a associar esses estados de euforia: GOOOOLOOOOO DO POOOOOOOORRRTTOOOO!
Tempos felizes esses, chutando bolas de trapo, como se o Mundo, o meu Mundo, fosse apenas constituído por aquilo. O amor parental, servindo de almofada a angústias quotidianas, uma bola e a baliza. Que felicidade…
Até a um ano específico. Um ano em que senti, e vi, o que significava ser portista. 1978. Tinha eu 7 anos. Pode alguém, homem feito, regressar a um dia, ou uma noite, como era o caso, amiúde, lembrando-se de pormenores que três décadas não apagaram? Pode…
Foi um Domingo especial. Sentia-se uma electricidade no ar, como uma corrente magnética, capaz de suspender o tempo. O relógio parecia estranhamente parado. O tempo, esse, movia-se mais devagar do que de costume. O meu pai, rosto fechado, com a crispação a enrugar-lhe os olhos, respondendo quase mecanicamente a interpelações constantes da minha parte. A minha mãe, pressurosa, procurando evitar focos de conflito, quando a irritação paterna ameaçava transbordar. Nunca mais me esqueço das pessoas por quem passava, em Arouca. Rostos
sorumbáticos, expressões indecifráveis, uma tensão crescente que se sentia, quase palpável. Eu, sentado nos degraus de casa dos meus avós, pressentindo que aquele era um dia diferente. O meu pai e o patriarca da família, ambos fechados dentro do carro, ouvindo o relato. Vidros abertos, cigarro atrás de cigarro, fumados num transe hipnótico pelo meu avô. Como se trazidas de longe, as vozes dos comentadores, dando eco a um anseio de toda uma geração. O Porto jogava com o Braga. Indescritível a algazarra gerada, quando as boas novas foram trazidas. Percebi que tinha chegado o fim. A partir dali, seria o primeiro dia do resto da minha vida. Aquele momento, sonhado durante 19 anos, pelo meu pai. O que é ser portista? Nesse dia aprendi. É chorar de alegria, com as lágrimas escorrendo pelo rosto, gerações diferentes abraçadas, irmanadas numa causa, sentindo o orgulho de ver a bandeira azul e branca a tremeluzir, ao vento, desafiando os adversários. Ver a felicidade estampada em rostos habitualmente circunspectos, os olhos a brilhar de êxtase, os risos nervosos soltados, enquanto, mais uma vez, os claxons dos carros faziam o seu barulho infernal. Eu, pequeno, encolhido num banco traseiro, vendo uma festa que parecia não ter fim. Um cortejo de automóveis que parecia saído de um filme surrealista. As cores - impossível ficar indiferente - azuis e brancas, agitadas freneticamente por transeuntes eufóricos, num misto de alucinação colectiva e adoração religiosa.
"Ser do Porto é ganhar sempre, não é papá?", já me perguntou a Filipa, na ingenuidade típica dos 5 anos, enquanto vai memorizando nomes tão díspares como Adriano e Helton, Quaresma ou Bosingwa. E eu, protector como um Dragão para a sua cria que ainda não cospe fogo, já lhe disse: "É mais do que isso, Pipa"! Não, nunca se tratou de vencer mais, pelo menos no meu caso. É algo endémico. Algo que me angustia, quando somos vilmente atacados. Algo que me comove, que exalta as minhas paixões, quando vejo aqueles deuses de azul vestidos, lutando em terras distantes, com o emblema orgulhosamente estampado no peito, pletórico. A alegria que me invade, quando vencemos, o orgulho que ameaça transbordar do peito. É, acima de tudo, AMOR. Uma paixão, sempre de chama acesa, sempre pujante na sua manifestação. [obrigado a ti pai. obrigado a ti, avô. por me terem ensinado os mandamentos desta nossa religião. por terem sabiamente amparado o meu percurso. até hoje. por terem estado lá, naqueles momentos de angústia, quando o archibald matou o sonho nas antas. ou antes, naquele café, com a turba a comemorar, quando o aek nos humilhou. por me terem ensinado que ser do porto era mais do que uma vitória. mesmo quando a derrota, como aquela na final, aos pés da juventus, me magoou tanto. por me terem secado as lágrimas. por terem comemorado comigo. eu e tu aqui pai. o avô lá em cima. onde assistiu à consagração máxima do nosso clube. obrigado aos dois]
E pensar que tudo começou naquele dia, em 1978...
ps: artigo originalmente publicado no dia 30 de Agosto de 2007, no blog Bibó Porto
