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10 de maio de 2009

Vamos repetir a festa?


nota: Depois do campeonato do asterisco (*), Jesualdo sabe que é bem avisado acabar o campeonato com 6 pontos de avanço contra os que fazem “as coisas por outro lado”. Pelo que, e até porque o FC Porto não brinca em serviço e entrega os pontos de mão beijada, há que vencer, ser campeão e manter a vantagem pontual. Nunca se sabe o que alianças espúrias de Verão podem fazer. Deve ser por isso que o treinador do FC Porto quer ganhar todos os jogos até final. E pensa muito bem, ou não fosse já experimentado na difícil tarefa de ser campeão pelo FC Porto, contra tudo e contra tolos.


zé luis, para o excelente portistas de bancada

16 de março de 2009

Exibição de gala? Não! Exibição de Lucho...

assistência: 34.211 espectadores.
árbitros: Cosme Machado (AF Braga), Alfredo Braga e Henrique Parente; Albano Correia.

FC PORTO: Helton; Sapunaru, Rolando, Bruno Alves e Cissokho; Andrés Madrid, Raul Meireles e Lucho «cap.»; Mariano, Lisandro e Rodríguez.
Substituições: Andrés Madrid por Tomás Costa (59 min), Rodríguez por Tarik (79 min) e Lisandro por Farías (79 min).
Não utilizados: Nuno, Stepanov, Rabiola e Ivo Pinto.
Treinador: Jesualdo Ferreira.

NAVAL: Peiser; Carlitos, Paulão «cap.», Diego Ângelo e Daniel Cruz; Bruno Lazaroni, Godemeche, Alex Hauw e Davide; Marinho e Marcelinho.
Substituições: Daniel Cruz por Baradji (46 min), Alex Hauw por Dudu (46 min) e Davide por Bolívia (72 min).
Não utilizados: Jorge Baptista, Gilmar, Michel Simplício e Real.
Treinador: Ulisses Morais.disciplina: cartão amarelo a Lisandro (29 min) e Dudu (90 min).

marcadores: Mariano (29 min) e Lucho (68 min).

É uma noite especial, esta da Invicta. Sob um céu estrelado, uma lua luminosa e uma temperatura amena, joga-se no Dragão uma partida transcendental. Quem diria, ainda a canícula do Verão convidava a mergulhos em águas tépidas, quando sorteio ditou que o Porto seria o anfitrião dos homens da Figueira, a oito jornadas do fim, que os 3 pontos em disputa valeriam ouro?

Com os encontros até final em contagem decrescente, e com a margem pontual a não ser tão folgada como em anos anteriores, as partidas revestem-se de um carácter imperativamente próximo de uma final. Ao subirem ao palco majestoso do mais belo Estádio nacional, os comandados de Jesualdo sabem de antemão o que o público, esse fiel companheiro de todas as horas, quer. A vitória. O soltar, de forma pujante e alegre, o grito doce do triunfo.

Se o Dragão, ultimamente, não tem sido o bastião inexpugnável habitual, com os azuis e brancos a denotarem sérias e preocupantes carências na finalização, o apoio não tem sido regateado, numa mensagem subliminar de esperança e crença nas capacidades da equipa.

O opositor desta noite foi um dos carrascos do Porto, na competição-mor do futebol nacional, derrotando os portistas na Figueira da Foz, aumentando a crise então vivida, acentuando o sentimento de purga que se vivia, por aquela altura.No lançamento da partida desta noite, os dados que merecem ser realçados são já conhecidos do grande público. O dream team, versão 153 da era Orelhas, baqueou em casa, perante o seu grande amigo vimaranense. O vizinho do outro lado da 2ª circular, ainda numa fase de convalescença depois da monumental tareia aplicada por uma germânicos irascíveis, é agora o detentor do 2º posto da tabela classificativa. Isso implica, tudo devidamente somado, que em caso de vitória azul e branca o fosso aumenta dos actuais 2 pontos de vantagem para uns mais confortáveis 4.

Na véspera de nova paragem na competição, Jesualdo sabia que não podia contar com o pêndulo do meio-campo, Fernando, e com a nova coqueluche do futebol europeu, Hulk, ambos a cumprirem o castigo disciplinar pelos 5 amarelos já vistos. Os seus substitutos esperados são o reforço de Inverno, vindo da cidade dos arcebispos e desejo antigo do técnico portista, Andres Madrid, e Mariano Gonzalez, entrando para o tridente atacante. O aríete, colocado bem junto dos centrais do adversário, era Lisandro, procurando redescobrir o segredo que o transformou, no ano transacto, num letal avançado.

Tinha um desejo secreto, antes do apito inicial do árbitro. Um golo madrugador, que afastasse a ansiedade, estabilizando o batimento cardíaco. E isso quase que acontecia…

O Porto entrou pressionante, rápido nas transições, num futebol efectuado a toda a largura do terreno, com os seus jogadores a movimentarem-se com celeridade nos espaços vazios. Aos 2 minutos, já as gargantas se soltavam em berros de frustração, quando Rodriguez falha clamorosamente a um metro da baliza. Uma oportunidade flagrante, reavivando fantasmas recentes de goleadas desperdiçadas pela inépcia no momento do remate final.

Aos 10, um lançamento magistral de Lucho isolou o compatriota Lisandro. Este, com uma recepção exemplar, faz o que os manuais ensinam numa situação de um-para-um, com o guarda-redes. Bola para um lado, tirando-a do alcance das luvas e passagem estendida, no lado oposto, com a baliza desguarnecida a ficar à mercê. Mas isto é o que ensinam em ambientes teóricos. Na prática, há que levar em consideração uma série de factores aleatórios. Um pedaço de relva ligeiramente mais elevada que os restantes. Um cordão desapertado na chuteira. A sofreguidão no momento do remate. Ou Cosme Machado.

Lisandro não é derrubado por Peiser. Não. Isso seria um eufemismo. O avançado portista é literalmente abalroado, o mais parecido numa situação de jogo com um atropelamento brutal. A saída destemida e extemporânea do guardião figueirense ,derrubando de forma escandalosa o jogador adversário, mereceu uma estranha benevolência arbitral.

A miopia do juiz bracarense não provocou qualquer mossa nos Dragões. Com uma exibição sem mácula, alegre, jogando de forma simples, unindo a certeza do passe à velocidade de execução, o domínio acentuou-se, de forma asfixiante. A equipa funcionava como um harmónio, com os laterais participativos nas jogadas enleantes de ataque. Cissokho, exemplo de disponibilidade física, marcava o ritmo, combinando com Rodriguez, abrindo brechas na defensiva oposta. Lucho assumia-se como o cérebro, cabeça erguida, colocando o esférico, de forma cirúrgica, nos seus companheiros. As oportunidades sucediam-se, o pânico a dominar o conjunto da Naval.

Quando já se desesperava por um golo, merecido face a um caudal ofensivo brutal, El Comandante mostrou que estava nos seus dias. Um passe calibrado de forma perfeita, o couro a colar-se aos pés do companheiro de batalhas habitual, Lisandro, e este, depois de um movimento mágico, a ser derrubado por Paulão, dentro da área de rigor. Derrubado? Voltamos à velha questão dos factores aleatórios. E a Cosme Machado. O argentino tinha ganho a posição. Estava de frente para a baliza, a míseros metros de poder alvejar com sucesso as redes. O toque de Paulão, visível a olho nu na estação espacial americana, foi suficiente para o desequilíbrio do ponta-de-lança. Deve ser esta a impunidade de que fala o presidente encarnado…

Não houve tempo para impropérios e invectivas ao desastrado condutor da partida. Mariano Gonzalez, num remate de raiva, depois de um bailado esteticamente agradável à frente da defensiva navalista, conferiu justiça ao marcador. O golo, tardio, era uma pírrica forma de justiça para quem tanto tinha porfiado.

Faltava um quarto de hora para o intervalo. E deveria ter sido jogado sob um manto de silêncio sepulcral. Tal como as cosmopolitas audiências da ópera, reverentemente caladas, deixando brilhar os intérpretes que os deliciam, o público do Dragão assistiu a 15 minutos de gala. Um reportório imenso, deliciando as bancadas ávidas, com uma exibição conjunta de inegável qualidade. Fiquei fascinado, com destaque para o lance, brilhante, aos 40 minutos, iniciado numa recuperação do lateral-esquerdo portista, passando por uma troca de bolas, ao primeiro toque, culminada numa corrida desenfreada de Rodriguez e do cruzamento deste, mortífero, para Lucho. O falhanço do homem vindo das Pampas não deslustra a beleza inerente ao acto. O intervalo chegou, deixando pairar aquela mistura de êxtase, pelo que se tinha assistido, a frustração, pelo periclitante resultado.

A segunda metade foi uma cópia fiel da primeira. Domínio intenso. Futebol adulto, concentrado, com uma pressão alta digna de registo, numa concentração impar, não permitindo veleidades ao adversário. A pecha, como sempre, radicava numa finalização desastrada, colocando os nervos à flor da pele.Paulão ainda assustou, depois da saída em falso de Helton, na marcação de um canto. Foi também o canto do cisne, para aqueles que almejavam pontuar na Invicta. Mariano, sempre activo, assiste Lucho. O movimento sublime deste, recebendo e disparando, quase sem pestanejar, com o pé direito, sentenciou uma partida avassaladora dos portistas. The End, em letras garrafais, na noite portuense…

Análise final: Respira-se confiança, com os pupilos de Jesualdo a confortarem os seus adeptos, nesta recta final rumo ao desejado tetra. Exibições sólidas, dominadoras, assentes num futebol musculado, com a componente física a merecer elevados elogios. Afastado o espectro dos empates caseiros, a vitória frente à Naval foi convincente, perfeitamente justa, pecado apenas pela escassez dos números envolvidos.

Melhor em campo: É o cabo dos trabalhos. Gostei de tantos. Madrid, no tempo jogado, foi a personificação de um trinco inteligente, privilegiando o fácil em detrimento de lances mais adornados. Sapuranu, concentrado, perdeu definitivamente a tibieza. Raçudo, empenhado, tem suprido com qualidade a ausência de Fucile. Rodriguez continua a viver o seu estado de graça. Fulgurante, dotado de uma velocidade que provoca mossa nos defesas adversários, tem sido um demónio à solta, semeando terror nas hostes contrárias. Impressionante a quantidade de vezes que o uruguaio fintou, centrou e serviu os companheiros mais avançados.

Cissokho, um irmão gémeo do uruguaio, de tez mais negra, voltou a pontuar na gratidão dos indefectíveis adeptos do clube. Subindo inúmeras vezes no terreno, combinando com o seu parceiro de flanco, deixou o cabelo em pé aos figueirenses. Uma pérola, em estado ainda bruto, mas sendo lapidado serenamente pela equipa técnica. Mariano, o protótipo do jogador querido por qualquer técnico, efectuou um trabalho de sapa. Impulsionou o jogo, reactivando o fulgor do lado direito, sendo o primeiro a perceber como se deveria chegar à vitória. À bomba. Saindo do limbo onde viveu a temporada anterior, o argentino tem cumprido na perfeição a aposta regular de que é alvo. Não se contentando em finalizar, serviu Lucho, para este colocar o ponto final na partida.E Lucho, o “man of the match”, voltando a tempos passados, quando a sua classe planava, omnipresente, sobre o relvado. El Comandante foi o timoneiro. Alternou passes curtos com longos, lateralizações com lances em profundidade, remates de fora da área e assistências letais. Marcou o 2º tento, pequena obra de arte, onde os seus atributos ficaram visíveis, tendo colocado, com uma precisão espantosa, a bola nos pés de Lisandro, em duas ocasiões em que viu o colega ser derrubado. Nem o falhanço clamoroso, a passe de Rodriguez, lhe estraga a nota elevada.

Arbitragem: Demasiado mau para ser apenas um acidente de percurso. Na dúvida, optou sempre por decisões contrárias à equipa da casa. Fechou os olhos, rivalizado com Lucilio Baptista, num célebre Sporting-Porto, não a um, mas a dois penaltys. Nítidos. Sem espinhas. Não contente com o feito, admoestou Lisandro, por pretensa simulação, impedindo o jogador portista de defrontar o Guimarães. Quando alguns, no habitual tom tonitruante, camuflam derrotas caseiras com o gasto discurso sobre impunidades no futebol tuga, estas actuações dos juízes de campo apenas provam quão fátuo é o conteúdo de tal prédica. “O melhor é fazer as coisas por outro lado”, como lema de vida de tipos com apêndices auditivos enormes, pode complicar a vida aos portistas, nestas oito jornadas finais. Temos que estar atentos…


8 de março de 2009

Somos o Povo mais forte...


árbitros: Rui Costa (AF Porto), Serafim Nogueira e Fernando Pereira; Augusto Costa.

LEIXÕES: Beto; Laranjeiro, Elvis, Nuno Silva e Angulo; Roberto Sousa, Bruno China «cap.», Hugo Morais e Ruben; Diogo Valente e Rodrigo Silva.
Substituições: Ruben por Chumbinho (37 m), Elvis por Joel (46 m) e Hugo Morais por Zé Manuel (58 m).
Não utilizados: Berger, Braga, Castanheira e Jean Sony.
Treinador: José Mota.

FC PORTO: Helton; Tomás Costa, Rolando, Bruno Alves e Cissokho; Fernando, Raul Meireles e Lucho «cap.»; Mariano, Farias e Hulk.
Substituições: Raul Meireles por Andrés Madrid (68 m), Hulk por Tarik (75 m) e Lucho por Lisandro (79 m).
Não utilizados: Nuno, Pedro Emanuel, Rabiola e Ivo Pinto.
Treinador: Jesualdo Ferreira.

disciplina: cartão amarelo para Hugo Morais (22 m), Hulk (57 m), Farias (76 m) e Fernando (90 m).

golos: Lucho (23 m, g.p.), Hulk (49 m), Raul Meireles (65 m), Farias (76 m) e Diogo Valente (89 m).

Neste novo confronto com o Leixões, depois das duas partidas, no Dragão, para a Superliga [de má memória] e Taça [carimbando a passagem para as meias], já se sabia que o onze inicial sofreria alterações.

Desde logo, pelo amarelo destemperado mostrado a Rodriguez, quando o clássico frente ao Sporting estava já nos estertores finais, lapidando os azuis e brancos de uma peça fulcral na manobra ofensiva. Depois, porque as mazelas físicas que têm atormentado Fucile, obrigariam Jesualdo a improvisar um substituto à altura do uruguaio. Com Sapunaru usufruindo também de cuidados médicos, ele que tinha deixado boa impressão no confronto em terras de “nuestros hermanos” com o Atlético, e Pedro Emanuel claramente sem ritmo e posicionamento para a função, saiu o brinde a Tomas Costa, polivalente jogador, hábil a desempenhar várias tarefas.

Mas as mudanças não se ficaram por aqui. Lisandro, com uma semana algo complicada, debelando uma constipação, começou a partida num posto pouco habitual, face à importância acrescida do argentino na equipa: no banco, olhando de um posto privilegiado os seus companheiros de armas a lidarem com os matosinhenses.

O habitual e mortífero tridente atacante dos portistas sofreu um facelift, com Hulk e Mariano a ficarem donos dos flancos, deixando o posto de ponta-de-lança [estático] para Farías.A partida, obstáculo supremo dos Dragões na caminhada rumo ao tetra [atrevo-me a dizer que este será o opositor de maior valia que defrontaremos nesta recta final, a par do Braga], começou com os pupilos de Jesualdo a procurarem assegurar um domínio profícuo, empurrando os da casa para a habitual defesa porfiada.

O Leixões, unido e concentrado, respondia sempre que possível, explorando a rapidez de Diogo Valente, Ruben e Rodrigo, lestos a rematarem [3 remates nos primeiros 20 minutos da partida], sentindo-se confortáveis com a bola no pé. Era um Leixões personalizado, exímio na cobertura dos espaços, com marcações rígidas [Hulk que o diga, com vários encontros imediatos com os pitons dos adversários], procurando esterilizar o pensador e cérebro da equipa, Lucho, visando também impedir as subidas de Meireles no terreno, precavidos quanto ao poder do seu remate.Apesar do ímpeto do Leixões, o Porto foi colocando o seu cunho na partida, sabendo que o avançado, desta feita, tinha características diferentes.

Com maior capacidade aérea, o argentino Farías viu como Hulk e o seu compatriota Mariano o procuravam servir. As deambulações dos extremos, criando dificuldades aos defensores da casa, mostravam que os trabalhos de casa tinham sido exemplarmente feitos. Era um Porto arrogante, no bom sentido, sabendo que era mais forte, não se inibindo pela importância da partida e pelo valor do opositor.

Hulk criou a primeira grande oportunidade de golo, aos 17 minutos, numa jogada envolvente, feita com as habituais armas do brasileiro: velocidade e capacidade de explosão. Beto defendeu, em último recurso, com os pés.

O golo veio poucos minutos depois. Hugo Morais, na disputa de um lance com Rolando, corta o esférico com as mãos, com o árbitro a marcar a grande-penalidade [desta feita, sem reticências para os comentadores da RTP]. Lucho, sereno, não perdoou, carimbando o avanço merecido no marcador.Se a vantagem era justa, adequando-se ao que se passava no relvado, os 15 minutos seguintes poderiam ter finalizado prematuramente a partida.

A reacção, tímida, do Leixões, não provocou qualquer mossa na defensiva portista. Ao invés, sentia-se que os campeões em título, confiantes, tinham a capacidade de sentenciar o encontro. Esteve quase, por várias vezes…

Mariano, na habitual exibição esforçada, trabalhando em prol do colectivo, polvilhando a mesma com uns pozinhos de magia, realiza uma assistência letal para Farías. Este, atrapalhando-se inicialmente na recepção do esférico, deslumbrou-se de seguida com o seu isolamento, rematando ao lado. Oportunidade soberana gorada.

Lá atrás, Tomas Costa mostrava-se suficientemente rotinado, não abrindo brechas, enquanto via o seu companheiro do flanco oposto, Cissokho, a galgar metros, no apoio sempre intensivo ao ataque.Em nova investida, com Farías a combinar magistralmente com Hulk, Beto salva o Leixões novamente, em saída arrojada, mas com o esférico a ficar ali, à mercê de Meireles. Quando o médio portista se aprestava para criar enorme perigo é abalroado por Roberto Sousa [um lance que no Record online é eufemísticamente caracterizado como “choque”], numa clara grande-penalidade que fica por marcar.Tempo de intervalo. 45 minutos que deixam um sorriso nos lábios, expressando contentamento com a exibição azul e branca.

A segunda parte iniciou-se de forma perfeita. Assédio do Leixões, dois cantos contra os portistas, um lance aparentemente inócuo, com Laranjeiro a ofertar de cabeça a bola, redondinha, para Hulk.

O resto da história já é sabida. Arrancada imparável do brasileiro, deixando atrás de si um relvado devastado pelo poder destrutivo de super-herói. Isolado, possuindo a frieza glacial dos predadores, um serial-killer impiedoso, empurrando o couro com graciosidade para o fundo da baliza de Beto. 2-0. Explosão de alegria no Estádio do Mar, com a imensa falange de apoio a festejar, exuberante e ruidosamente, sabendo quão preciosos são os 3 pontos em disputa.

Os espartilhos tácticos estilhaçaram-se, numa miríade de pedaços. José Mota mandou às malvas o constrangimento de defrontar a mais forte equipa nacional. Apostou tudo no ataque. E, com isso, estendeu uma passadeira, um convite para que o contra-golpe fosse explorado de forma regular. O Porto assim fez, causando calafrios quando os executava perto da perfeição. Passes rápidos, rasgando a cortina defensiva, pedindo as corridas desenfreadas de Hulk e Mariano. Adivinhava-se um castigo maior…

O Porto parecia um harmónio, pleno de afinação, obrigando as gargantas nas bancadas a saudarem com “olés” as trocas de bola. Jogadas de fino recorte, esteticamente perfeitas, deliciando os apreciadores de obras de arte. Merecendo figurar nos compêndios que ensinam os truques futebolísticos, a jogada do 3º golo é merecedora de encómios variados.Gincana de Farias, à boa maneira de um extremo, ultrapassando dois adversários, centrando rasteiro, para a finalização de Meireles. Um golpe cirúrgico, desencadeando o caos nas bancadas, por parte da “aficcion” matosinhense. O golo funcionou como um derradeiro golpe, quase como um “uppercut” brutal, deixando o Leixões em KO.

A partida, jogada já em ritmo de treino intenso, transformou-se num recreio gigantesco, com as diabruras portistas a valerem, ainda, mais um golo. Farías, aproveitando [finalmente] um canto. Sentença final. À Porto.Análise final: Impiedosa demonstração de superioridade, não permitindo qualquer veleidade, voltando a demonstrar que a equipa está rotinada para jogar fora de casa, exímia nas transições rápidas. Exibição sem mácula, humilhando o Leixões, dando também um forte aviso aos papagaios que pululam na imprensa e aos habituais queixinhas da 2ª circular: SOMOS OS MAIS FORTES. PONTO.

Melhor do Porto: Tarefa árdua. Gostei de tantos, que hesito na escolha do melhor. Achei Tomas Costa seguro, sereno, coeso. Os centrais intransponíveis, dominando a área circundante. Meireles, o eterno mouro de trabalho, sempre longe dos holofotes da fama fátua, peça importante na batalha do meio-campo, pêndulo entre o apoio defensivo e a participação activa no ataque. Hulk, como sempre, arma de destruição maciça, intratável e indomável. Elejo, no entanto, um herói improvável, que merecia ver coroada a exibição com um golo. Mariano Gonzalez, mal-amado, mas merecedor de confiança eterna do seu treinador. Estereotipo do jogador que abdica do brilho individual, em prol do grupo, participou na maioria das jogadas de ataque portistas [magnífica a simulação para o remate de Meireles, no 3º golo], ajudando nas tarefas defensivas, colocando a cabeça à roda aos defensores matosinhenses, com as trocas de posição com Hulk.

Arbitragem: Poderia ter sido perfeita. Boa postura do juiz de campo, quase não se dando por ele, mas falhando rotundamente na análise do lance que envoveu Meireles e Roberto Sousa, na 1ª parte. Penalty indiscutível que ficou por marcar. Quanto ao resto, nada a apontar, pese a habitual permissividade nas entradas viris sobre Hulk.

Notas finais: Negligência grotesca de Helton, facilitando e permitindo o golo do Leixões, num lance patético;

Óptima gestão dos amarelos, com Hulk e Fernando a serem admoestados, falhando o embate caseiro com a Naval. Aos poucos o panorama disciplinar vai-se desanuviando no Dragão;

Mau perder dos adeptos caseiros, semeando a violência nas bancadas, copiando comportamentos habitualmente vistos em Guimarães. Não merecem a equipa que têm, nem o trabalho desenvolvido...

28 de fevereiro de 2009

Porto x Sporting

A cónica do jogo, como habitualmente, aqui.

20 de fevereiro de 2009

Mais um "Paço" para o Tetra...

Vencemos, somando os 3 pontos, desiderato mais importante. A exibição, q.b., permitiu a manutenção do primeiro posto. Amanhã, com tempo [coisa que me tem faltado, cada vez mais], esmiuçarei a exibição azul e branca.

Para a história, fica mais uma inenarrável locução da partida, com comentários parciais, venenosos, mesquinhos, de uma doentia facciosidade, mostrando que a posição cimeira preocupa, de que que maneira, muita gente. Como cereja no topo do bolo, a expressão "cândida" de que "esta jogada do Paços merecia golo". Pois. Mas olhem para o meu dedo do meio, bem erecto para vocês, escumalha. Soletrem:

C.H.U.P.E.M.

15 de fevereiro de 2009

Salvos pela Tecla afinada


assistência: 34.808 espectadores.
árbitros: Elmano Santos (AF Madeira), Sérgio Serrão e José Oliveira; Augusto Costa.

FC PORTO: Helton; Fucile, Rolando, Bruno Alves e Cissokho; Fernando, Raul Meireles e Lucho «cap.»; Hulk, Farías e Mariano.
Substituições: Fucile por Tomás Costa (46 min), Mariano por Rodríguez (58 min) e Cissokho por Lisandro (73 min).
Não utilizados: Nuno, Pedro Emanuel, Guarín e Tarik.
Treinador: Jesualdo Ferreira.

RIO AVE FC: Paiva; Miguel Lopes, Gaspar, Bruno Mendes e Rogério Matias; Niquinha «cap.», Delson, Livramento e Fábio Coentrão; Evandro e Yazalde.
Substituições: Evandro por Candeias (46 min), Livramento por Tarantini (70 min) e Fábio Coentrão por Edson (77 min).
Não utilizados: Mora, André Vilas Boas, Chidi e Pedro Moutinho.
Treinador: Carlos Brito.

disciplina: cartão amarelo a Cissokho (5 min), Gaspar (35 min), Farías (39 min), Delson (46 min), Niquinha (53 min), Tomás Costa (60 min), Candeias (60 min), Fábio Coentrão (71 min) e Rogério Matias (87 min).

golos: Lucho (36 min, g.p.), Fábio Coentrão (71 min) e Farías (86 e 89).

3 jogos. 270 minutos. Um mísero golo, no Estádio do Dragão, obtido por Lucho, na marcação de uma grande penalidade que aziou um País quase inteiro. O jogo de hoje, contra o Rio Ave, representa por isso mais do que meros 3 pontos em disputa. Poderá ser a ocasião perfeita para afastar fantasmas passados, encontros onde a finalização foi irritantemente inócua.

Do outro lado, ancorados como sempre na esperança de um bom resultado, uns vilacondenses em posição periclitante na tabela, usando o desespero como arma para alimentar a tenacidade defensiva.

A conferência de imprensa, que antecede os embates da Superliga, já tinha deixado adivinhar algo que a constituição da equipa inicial mostrou. Jesualdo, com algumas pedras nucleares à beira da exclusão, em caso de admoestação arbitral [e quem não se lembra do amarelo a preceito dado a Fucile em Setúbal?], resolveu usar a rotatividade, essa palavra algo tenebrosa que significa alterações num onze tipo.

Mantendo a forte e coesa estrutura defensiva inalterada, bem como a intimidade que o meio-campo revela, foi no ataque que as bocas se abriram de espanto, ao constatar que Lisandro e Rodriguez [dois dos jogadores à bica] estavam relegados para o banco de suplentes.

Para os seus lugares, Mariano Gonzalez, recentemente com a bitola exibicional mais condizente com a camisola que enverga, e Farías, um argentino que rapidamente perdeu a pólvora que a fama anunciava de mortífero goleador.

O Porto entrou bem. Pressionante e com Hulk a criar perigo, logo de início, quando dispara para defesa elástica de Paiva. Seria um tónico perfeito para os Dragões, com o embalo de golo madrugador, mas a sorte/finalização nada quiseram com os azuis e brancos.

Marcava o cronómetro 6 minutos, quando Cissokho é agraciado com o primeiro amarelo da partida. O lateral-esquerdo, ainda à procura do seu espaço na equipa, impede a progressão de Miguel Lopes, futuro reforço.

E o jogo continuou, numa toada de ping-pong, com boa réplica da equipa de Carlos Brito, beneficiando de alguns espaços para delinearem o contra-ataque. No Porto, era o brasileiro com nome de super-herói que servia de abre-latas. Hulk, personificação da potência aliada à técnica, criava espaços, procurando servir os companheiros no centro da área.

O Estádio assistiu, aos 21 minutos, a uma dança esteticamente perfeita do brasileiro, capaz de se desenvencilhar de vários adversários, ofertando de seguida a bola, redondinha, para Meireles. O remate deste, desviado em esforço por um contrário, embate no poste, com Paiva batido. Continuava o namoro, encetado desde o início de temporada, dos portistas com os ferros das balizas opostas.

Foi o melhor período dos comandados de Jesualdo. Várias combinações, criando o caos no último reduto vilacondense, num carrossel ofensivo com Lucho no epicentro. Teimosamente, a bola não entrava, começando a fermentar o caldeirão de ansiedade nas bancadas. E aos 31 minutos, o exemplo perfeito de como o futebol pode ser, simultaneamente, um vício apaixonante e uma injustiça gritante.

Hulk, poderoso, arranca no meio-campo portista. Em velocidade, lançado como uma locomotiva a vapor, o brasileiro torna-se imparável. Ele avançou, demonstrando que a alcunha lhe assenta como uma luva. Tem algo de mítico. De heróico. De sobre-humano. Veloz, proporcionou uma imagem única, perdurando muito para além dos 90 minutos. Elegante na corrida, cabeça levantada, corpo imparável, passando por um. Por dois. Por três. E depois, a 25 metros da baliza, disparando com o pé esquerdo. Um míssil. Um balázio. Caprichosamente, quando o destino do couro parecia ser o anichar-se nas redes da baliza, ele embate violentamente na trave. Quase um sacrilégio, pois qualquer amante do desporto-rei mereceria ver, vezes sem conta, o lance espectacular.

Não foi preciso, pese a decepção de não ver glorificado o lance, esperar muito mais para ver golos na Invicta. Aos 37 minutos, os espectadores puderam verificar, por si mesmos, que Farías estava em campo. O argentino, capaz de fazer corar de vergonha a própria apatia, conseguiu acorrer a um lançamento em profundidade. Gaspar, mais um futebolista de cabelo horrivelmente oxigenado, comete falta. E Lucho aproveitou para facturar mais um.

O momento bom do Porto era finalmente premiado. Mas a contenda, na primeira metade, não terminou aqui. Teve mais 5 minutos. E muitos casos. Aos 40, Mariano cabeceia e Paiva defende. Dentro ou fora? Na dúvida, já se sabe, f**-s* o Dragão. The show must go on, mesmo que as imagens comprovem que o GOLO É LEGAL. LIMPO. MAS ISTO, JÁ SE SABE, NÃO FARÁ CAPAS DE JORNAIS, NEM ARTIGOS INFLAMADOS DA CORJA DO COSTUME, POIS NÃO?

Um minuto apenas decorrido, e o sempre prestável fiscal-de-linha anula mais um golo, desta feita a Farías, milimetricamente adiantado. Olho-de-lince, quando a lei diz que, em caso de dúvida, se deve favorecer o ataque. Como forma de se precaver de mais asneiras, Elmano apitou para o intervalo. Foi o que fez de melhor.

A segunda parte é um deserto. Tivemos um ministro que afirmou que, numa determinada zona a sul, aquilo era um ermo, sem ninguém. É a melhor forma de caracterizar a exibição [qual exibição?] portista no pós-intervalo. Sem chama. Sem crença. Sem velocidade. Sem pressão. Sem intensidade. Sem nada. Um deserto.

Começou cedo, com a troca de Fucile [boa exibição no tempo em que esteve em campo], por Tomas Costa, com Fernando recuando para a ala direita. Sem se perceber o que esteve na génese da substituição do uruguaio, apenas a especulação poderá esclarecer. Lesão, atendendo a que o jogador apresentou algumas queixas, no final da primeira metade? Poupança? Desagrado com a exibição?

O tempo ia passando, percebendo-se que essa devia ser também a estratégia [qual estratégia?] engendrada pelo nosso treinador, mestre em contenção, doutorado em controlar jogos quando falta uma eternidade para o final.

A sensação premonitória, de tragédia iminente, desceu sobre o Dragão, quase como algo viscoso. Fábio Coentrão ameaçou, aos 57 minutos. Perante tanta passividade defensiva, rematou ao poste. Candeias andava já em campo, pisando terrenos que conhece na perfeição. O Rio Ave, sem ser dominador, assustava.

No lado do Porto apenas Hulk mostrava inconformismo. Chutava, sempre com perigo, ludibriava adversários, conseguindo amiúde colocar o esférico jogável em companheiros, procurava esticar o jogo para onde ele naturalmente deveria fluir. Para a baliza vilacondense. Até que, aos 72 minutos, recebido de forma natural, o golo do empate. Um soco no estômago. Um balde de água fria. Um golpe nas nossas aspirações.

O fabuloso remate, de Coentrão, silenciava por momentos o monumental anfiteatro dos sonhos. [Abro aqui um pequenino parêntesis para falar sobre o jogador em questão. Tecnicamente irrepreensível, tem algo que o pode tornar apaixonante. Move-se de forma felina, com o couro colado aos pés, como se fizesse parte da epiderme. Mas, em algum momento da criação, o talento não foi acompanhado pela inteligência. Demasiadas pitadas de um ingrediente e quase nenhumas do outro. Comprovando que escolheu o patrão certo, ao assinar com a corja encarnada, o jovem jogador tem a personalidade perfeita para jogar de águia ao peito. Mesquinho, provocador, fanfarrão, verdadeiro estereotipo de gentinha menor, incapaz de conviver com a glória. O gesto provocatório, quando assinou o empate, teve a devida correspondência, mais tarde, por parte de Farías. Duas teclas, bem espetadas, na tua bílis…]

E pronto. Acabou o [pouco] futebol racional. Começou o pontapé na bola feito de emoção, jogado com o coração. Ironicamente, foi isso que salvou o Porto. O peso das listas azuis e brancas. O passado histórico do clube. A tradição que aquele emblema carrega. Tudo isso galvaniza quem a veste. Até à última gota de suor, lutando...

Faltavam apenas 4 minutos. A descrença tinha-se abatido, de forma inexorável. Até que Lucho, exuberante Comandante das tropas, cruzou a bola para a área. FARIAS.FARÍAS.FARÍAS.FARÍAS.FARÍAS. O grito, estrangulado na garganta de milhares, fez-se ouvir. Um grito simbolizando o alívio, o bálsamo, a cura, que aquele golo representou. Um golo importante, tremendamente valorizável, que poderá valer um campeonato, quando na resenha final se efectuar o somatório das importâncias.

Já sem imagens [serviço público na RTP, no seu “melhor”], Farías redimiu-se de uma partida jogada de forma abúlica, sentenciando o encontro. Jesualdo pode respirar de alívio, apesar de perseguido por uma imagem que representa bem o estado de coisas após o empate. Mãos na cabeça, personificação do desespero e impotência perante a exibição, pálida, dos portistas.

Melhor em campo: Durante todo o jogo, claramente Hulk, pelos motivos enunciados acima. Exibição ao seu nível, combativo, diligente, acutilante. Merecia os louros de ser ele o obreiro da conquista dos 3 pontos. Mas, ao ter que escolher apenas um nome, Farías. Se é certo que, ao longo de todo o jogo, exasperou o mais paciente dos homens, estranhamente ausente das mais elementares participações num jogo de futebol, o que é certo é que estava lá. Para empurrar o esférico, por duas vezes, para o fundo das redes. É ele o homem do jogo. “Tecla” Farías.

Arbitragem: Não é, farto-me de repetir, com “Labaredas” que lá vamos. O Porto já deveria estar, nesta fase da competição, a fazer sangue. Pedindo a cabeça de Hermínio. Exigindo castigos aos jogadores dos mais directos adversários. Usando as mesmas armas. Olho por olho. Dente por dente. Até lá, até esse dia em que a nossa defesa seja feita com arreganho, de peito feito, sem medos nem receios espúrios, teremos que gramar com isto. A mensagem que alguns querem passar, de batotice, continua a ter via verde nos me[r]dia. Mesmo que, como hoje, tenha sido perpetrado mais um atentado à verdade desportiva. Um golo claro. Limpo. Legal. Não sancionado. Não merecerá parangonas nos jornais. Nem artigos de opinião dos impolutos seres que habitam gabinetes nos jornais. Nem, atrevo-me a afirmar, passará no resumo do jogo, nos canais televisivos. O que me preocupa é que ainda faltam 12 jornadas. 12 oportunidades para, tal como hoje, nos colocarem mais obstáculos no caminho do Tetra. Miseráveis!

ps: artigo originalmente publicado no Bibó Porto, a quem se agradece também a cedência do logo da partida.

8 de fevereiro de 2009

Um mal menor

assistência: 50.110 espectadores.
árbitros: Pedro Proença (Lisboa), Tiago Trigo e Ricardo Santos; João Capela.
FC PORTO: Helton; Fucile, Rolando, Bruno Alves e Cissokho; Lucho «cap», Fernando e Raul Meireles; Lisandro, Hulk e Rodriguez.
Substituições: Raul Meireles por Mariano (65m) e Lisandro por Farías (87m).
Não utilizados: Nuno, Pedro Emanuel, Stepanov, Guarin e Tomás Costa.
Treinador: Jesualdo Ferreira.
SL BENFICA: Moreira; Maxi Pereira, Luisão «cap», Sidnei e David Luiz; Ruben Amorim, Yebda, Katsouranis e Reyes; Aimar e Suazo.
Substituições: Suazo por Di Maria (61m), Reyes por Nuno Gomes (86m) e Aimar por Carlos Martins (90m).
Não utilizados: Quim, Cardozo, Binya e Jorge Ribeiro.
Treinador: Quique Flores.
disciplina: cartão amarelo a Fernando (50m), Maxi Pereira (51m), Katsouranis (63m) e Yebda (70m).
golos: Yebda (45m) e Lucho (72m, g.p.).
Porto-Benfica. Os mais idosos, com memórias de jogos ancestrais, dizem que este é O jogo. Com direito a maiúscula. Um jogo que, aprendi ao longo de anos, nada tem a ver com desporto. Com a vitória ou derrota. Aliás, estes embates com o Benfica, para mim, nada têm de desportivo, de mero entretenimento. Isto é a guerra. Um embate de proporções bíblicas. Jocosos, os adeptos das águias proclamam que para nós, portistas, este é um confronto mais importante do que tudo o resto. Eu subscrevo, mas não pelos motivos por eles enumerados.

Habituei-me a ver aqui algo da eterna luta, pregada em salmos, no livro de capa negra, com as garrafais letras de "Bíblia". É um confronto perpétuo, com os destinos umbilicalmente ligados. O Bem. Contra o Mal. Não se lutará, hoje, no Dragão, pela conquista dos 3 pontos, ou pelo orgulho da vitória. Jogar-se-á por um bem maior. Justiça. Defrontamos uma agremiação inimiga. De gente pequena. Tacanha. Desonesta. Mesquinha. Onde os meios, para alcançarem os fins, tudo justificam. Um clube construído sobre alicerces de falsidade, amparado por um regime ditatorial, com campeonatos e taças maculadas de erros grosseiros. É esta a face negra do Mal.
E é contra isso que onze indómitos Dragões, vestes azuis e brancas ondulando ao vento, arrostando com chuva, lutarão. Até à última gota de suor. Quero uma vitória. Não pelo mero capricho de ostentar um sorriso no rosto, satisfação do dever cumprido. Não. Mas por nós. E por todos os outros que cairam. Gerações inteiras, sofrendo em silêncio, mas sempre lestas a venerarem o símbolo que nos apaixona. Muitos pereceram, sem vislumbrarem o sucesso.

Hoje, rapazes, quando subirem as cinzentas escadas que levam ao relvado, lembrem-se disso. Não estarão sós. Antes de verem, ouvirão o troar de gargantas afinadas. Milhares. Sempre ao vosso lado. Cantando. Em uníssono. Um grito que sai do mais profundo da alma. "Porto...Porto...Porto".

Lutem. Por um emblema que é mais do que um clube. É um clã. Uma forma de vida. O Bem. Desembainhem as espadas. A batalha vai começar...

***

Terminou. Com aquela sensação agridoce, mescla de alívio e frustração. Alívio pelo evitar da derrota, quando o desfecho negativo parecia inevitável. Frustração pela perda de uma oportunidade soberana de decidir, já hoje, o campeonato.

O jogo foi aquilo que se esperava. Intenso, disputado arduamente, com enorme voluntariedade, quase como se o relvado amplo do Dragão se tivesse transformado num imenso tabuleiro de xadrez. As peças eram movidas de forma cautelosa, com as implicações estudadas ao mais ínfimo pormenor.

O onze inicial do Porto não apresentou novidades. A equipa de sempre, movimentando-se da maneira habitual. Mas este Porto enferma de alguns males, como o comprova o fraco pecúlio caseiro, no que a golos diz respeito. Um opositor fechado, recuado, dotado de enorme capacidade pressionante, cobrindo os espaços onde habitualmente apareciam as armas letais portistas: Lisandro, Rodriguez e Hulk.

Os azuis e brancos sentiram, logo desde o apito inicial, enormes dificuldades. Sem bola, pressionados em toda a linha, apenas esporadicamente chegavam às imediações da área adversária. Rodriguez, do lado esquerdo, e Fucile, no flanco oposto, eram dois aríetes, fazendo da velocidade o argumento ideal para esticar o jogo.

Foi dos pés do uruguaio irrequieto que veio o primeiro sinal de perigo dos Dragões, quando a movimentação sem bola de Lisandro arrastou os defesas atrás de si, permitindo que o passe de Cebola, açucarado, chegasse aos pés de El Comandante. Com espaços, de fora da área, o argentino mirou as redes de Moreira, com a mira descalibrada.

Num encontro enérgico, com duelos individuais de grande nível [fantástica a luta entre Rodriguez e o compatriota Maxi Pereira], os azuis e brancos voltaram a criar perigo, rondava o relógio os 21 minutos. Um lance onde, pela primeira vez desde o inicio da partida, os espectadores se aperceberam da presença tenebrosa de Pedro Proença.

Jogada de insistência de Fucile, buliçoso, entregando a Lucho e fugindo na desmarcação. O homem nascido nas pampas rodopia, sofre uma falta de Reyes e cai. Por instantes, milésimos de segundo, a respiração de mais de 50.000 pessoas ficou suspensa. Seria o juiz lisboeta capaz de interpretar correctamente as leis do jogo?

O enlace, naqueles que ainda crêem no Pai Natal ou em árbitros honestos, durou um curto momento. Lucho levantou-se [o comentador da TV chamou-lhe fair Play, todo contente por ter um álibi para não mencionar o óbvio], conseguindo endereçar a bola para Fucile. O remate, forte e tenso, não causou mossa nas redes benfiquistas.

O Porto, quiçá por estratégia, recuava ligeiramente, permitindo o protagonismo aos homens trajando de encarnado. A equipa, alimentada a transições rápidas, procurava o espaço. O isolamento. A fuga. Hulk ainda teve uma cavalgada impressionante, culminada num remate desastrado. Mas o braço-de-ferro continuava, numa batalha para homens de barba rija. O jogo, rasgadinho, vivia da benevolência do juiz de campo, contemporizador para as entradas faltosas de Sidnei, Yebda e Cª.~

O “bruáaa” nas bancadas ainda se ouviu algumas vezes, até ao intervalo. Lisandro, epicentro da avalancha ofensiva e veloz dos Dragões, desperdiçou-as, ingloriamente. As cabeçadas, perigosas, saiam à figura de Moreira, ou sobre os ferros da baliza.

Já o tinha referido uma vez. Se fosse possível recriar o ambiente deste jogo, com todas as suas variáveis, numa redoma, controlada cientificamente, sem a intrusão de nenhum factor externo, o Porto venceria. Sempre. Mas não existem ambientes herméticos em futebol. O factor sorte/azar faz parte das leis imutáveis do jogo.

No último suspiro da primeira parte, o balde de água fria. Injusto para o que se tinha passado em campo. Um canto. Um cruzamento. E Yebda, de forma fulgurante, a inaugurar o marcador.

O Porto sentiu claramente o golpe. Viu-se, na 2ª metade, perdido na necessidade imperiosa de atacar, receoso do contra-golpe venenoso da águia. A guilhotina quase descia novamente sobre os pescoços portistas. Dois lances de golo. No primeiro, o olhar de Helton desviou o cabeceamento vitorioso de Suazo. Na outra, o brasileiro susteve, com a ponta dos dedos, numa defesa espantosa, a bola que selaria o desfecho da contenda.

O Porto tinha acabado, colectivamente. Meireles e Lucho eram sombras dos jogadores poderosos, dominadores, ultrapassados na guerra brutal do centro do terreno. A mística portista respirava, contudo e ironicamente, pela perseverança de dois novatos. Hulk e Rodriguez. Lutando bravamente, procurando a jogada individual, sofrendo golpes, mas sempre lestos a levantarem-se. Sem oportunidades de golo flagrantes, as iniciativas do brasileiro que um dia aterrou na Invicta, proveniente do Japão, colocavam o adversário em sentido. Mas o empate parecia uma utopia. Até que…

Lisandro entra na área e é derrubado pelo franco-argelino, de cabelo oxigenado e cara de tolo. Derrubado?

Aos 71 minutos de jogo começou, de forma insidiosa, em marcha a campanha habitual, difamatória. “Simulação grosseira”, bradaram alguns, arvorados em primas-donnas impolutas. “Penalty inexistente”, clamaram outros, incapazes de verem o braço de Yebda a impedir a progressão de Lisandro.

Lucho, alheio à guerrilha subterrânea dos colegas de profissão de Cartaxanas e Delgados, encheu o Dragão de felicidade. Colocou o couro branco e negro anichado nas redes de Moreira. A justiça, tardia, chegava.

De resto, até final, nada de relevante aconteceu, com o Porto a persistir em erros antigos, sempre e só jogando no contra-ataque.

Análise: O mal menor. Não vencemos mas mantivemos a liderança. No entanto, pese a entrega e a capacidade de luta, os azuis e brancos não realizaram uma boa partida. Letais, sabendo cirurgicamente aproveitar os espaços, parece que este futebol dos pupilos de Jesualdo só atinge a sua plenitude nos jogos fora. Como, até ver, não existe nenhum decreto que nos obrigue a jogar sempre fora de portas, vamos ter longos minutos de ansiedade no Dragão, até final do campeonato.

Melhor do Porto: Rodriguez. De longe o mais insistente e clarividente jogador dos portistas. Abnegado, nunca cedeu a entradas duras, a cortes impetuosos ou a uma virilidade excessiva. Foi o primeiro a perceber, atempadamente, que só com velocidade conseguiria ultrapassar os espartilhos tácticos do adversário. Não se limitou, no entanto, a isso. Correu. Centrou. Procurou diversas zonas do terreno. Rematou. Abriu espaços. Defendeu ferozmente [soberbo numa recuperação, na zona de Cissokho, aos 84 minutos, entrando de carrinho para ficar na posse do esférico], procurando galvanizar uma equipa amorfa. Foi um guerreiro, indestrutível, dentes cerrados, orgulhoso nas vestes que trajava.

Arbitragem: Já o referi acima. A campanha está em curso. Não errarei muito ao adivinhar que, amanhã, as capas dos pasquins dirão que o Porto empatou num erro do árbitro. Logicamente que isso permitirá branquear o critério disciplinar, benevolente para os forasteiros. Ou a vergonhosa perda de tempo, aos 90 minutos, na marcação de um livre [mereceria entrar para o Guinness. Quase 180 segundos para a bola sobrevoar a área de Helton]. Mas, com a táctica já congeminada, a que o Porto não se opõe, por não ter uma voz forte que brade contra este estado de coisas, será passado um pano sobre a nódoa que beliscaria os vermelhos. Lucho é derrubado dentro da área, com 0-0 no marcador. Ingenuamente, levanta-se para prosseguir a jogada. Só que alguém deveria [re]lembrar o juiz da partida que, em lances de grande-penalidade, não se concede a lei da vantagem. Não sabia disso, Pedro Proença?

24 de janeiro de 2009

O nosso lugar de eleição

1º. Já lá estamos outra vez, depois de uma brilhante vitória em Braga. A crónica, essa, fica para amanhã. Agora vou contar os penaltys vistos pelos "isentos" comentadores da TV, favoráveis ao Braga. Para aí uns 6 ou 7.

Saia mais um Kompensan para a mesa do fundo, se faz favor!

ps: Cuidado com os torcicolos, ao olharem para cima, na tabela classificativa. Mas, mesmo assim, estou pesaroso por termos perdido o título de Campeões de Inverno. Era um dos nossos grandes objectivos.

12 de janeiro de 2009

Ode ao desperdício


assistência: 28.408 espectadores.
árbitros: Luís Reforço, António Godinho e Nuno Roque; Carlos Xistra.

FC PORTO: Helton; Fucile, Rolando, Bruno Alves e Benítez; Fernando, Raul Meireles e Lucho «cap.»; Lisandro, Hulk e Rodríguez.
Substituições: Benítez por Mariano (61 min), Fernando por Guarin (68 min) e Raul Meireles por Farias (80 min).
Não utilizados: Nuno, Pedro Emanuel, Stepanov e Tomás Costa.
Treinador: Jesualdo Ferreira.

TROFENSE: Paulo Lopes; Paulinho, Milton do Ó «cap.», Valdomiro e Areias; Mércio, Delfim, Hugo Leal e Tiago Pinto; Hélder Barbosa e Reguila.
Substituições: Hélder Barbosa por David Caiado (65 min), Hugo Leal por Pinheiro (82 min) e Reguila por Rui Borges (89 min).
Não utilizados: Marco, Lipatin, Sidney e Zamorano.
Treinador: Tulipa.

disciplina: cartão amarelo a Tiago Pinto (36 min), Benítez (58 min), Milton do Ó (60 e 90 min) e Helton (90 min); Cartão vermelho a Milton do Ó (90 min).

golos: ---.

“Yippee-ki-yay, motherfucker”, dizia John McClane no mítico Assalto ao Arranha-Céus, saga bélico-destrutiva, onde um polícia manifestava o seu estado de alma, em períodos de euforia, com a frase acima descrita. É o que me apetece dizer, sempre, ao ver o Porto de regresso ao lar, pronto para mais um embate, guerreiros incansáveis na luta pelo ceptro nacional.

E hoje, mais do que outras vezes, esse sentimento, misto de ansiedade com euforia, ganha significado diferente. Uma vitória e os consequentes três pontos alcandoram o Porto ao seu posto de eleição. O 1º lugar. Não é um desafio hercúleo imaginar os Dragões no posto cimeiro da Superliga, tantas e tão repetidas vezes o feito foi celebrado. Mas será sempre com genuíno prazer que assistiremos a mais uma subida, feita a pulso, de forma tradicional, ultrapassado o período negro de maus resultados.

Como opositor, procurando impedir a onda de felicidade de banhar os fidelizados simpatizantes portistas, um Trofense em estado de exaltação de alma. À partida, este encontro aprazado para a gélida noite da Invicta, parece copiar na integra o confronto bíblico entre David e Golias. Só que este David, pequenino, é aparentemente feito de rija cepa, aplacando com contundência a soberba encarnada, na última jornada.

A vitória, épica, teve o mesmo efeito que uma injecção de adrenalina num moribundo. Vivendo ainda com os ecos da glorificação da proeza, os comandados de Tulipa [que regressa a uma casa que já foi sua] prometem fazer das fraquezas forças, cerrando os dentes com estoicismo, procurando encontrar o antídoto eficaz que pare a máquina atacante portista. Se de um lado encontramos um interveniente em estado de graça, do outro estão onze bravos que respiram confiança. Firmeza. Segurança. Por breves dias foram primeiros. Se vencerem, são-no novamente. Vai ser um jogo interessante.

Pena os momentos que o antecedem. No “dolce faire niente” do lar, aborrecido pela falta de actividade, tentei o zapping na tv. Asneira. E da grossa. Preferia estar entediado. Assim, um breve vislumbre do Braga contra uma equipa de que não me recordo do nome redundou numa frustração. Tremenda. Detesto injustiças. E ver um jogador da equipa de que não me lembro o nome marcar um golo ferido de legalidade [um eufemismo, para não escrever aqui um descarado ROUBO], prejudicando a equipa minhota, colocou-me mal disposto. O que dirão os jornais amanhã, perante este evidente escândalo arbitral?

Quanto às novidades no onze inicial, as esperadas. Aparentemente, Benitez está reabilitado, perdido o rótulo de proscrito. O argentino, com o recente reforço para a sua posição nas bancadas, pisou o palco com a clara intenção de provar que tem qualidade. Nós, adeptos, agradecíamos que assim fosse. O lado esquerdo da defesa mostra-se depauperado, presa fácil para os adversários, pese toda a abnegação que Pedro Emanuel tem posto, na realização da tarefa.

Foi uma entrada de Dragão. A cheirar o golo, logo no minuto inaugural, com Meireles a falhar a emenda, após excelente iniciativa de Hulk, cada vez mais preponderante nas manobras ofensivas da equipa. Ainda se ouviam os ecos do “bruáaa” que o lance tinha provocado nas bancadas, quando Rodriguez dispara cruzado, levando a bola a embate no poste. O Porto entrava a mandar, procurando não permitir veleidades a um adversário que se poderia tornar incómodo. O jogo estava rasgadinho, intenso, com a jovem equipa de Tulipa a procurar responder, sempre que se encontrava na posse da bola. Mas o sinal mais era, claramente, dos azuis e brancos.

Rolando, na sequência de um canto, elevou-se elegantemente, quase introduzindo o esférico na baliza de Paulo Lopes. Era um Porto pressionante, rolo compressor, empurrando o adversário para trás. Lucho, fisicamente recuperado de mazelas antigas, apareceu em jogo. Comandando, qual general ensinando o caminho da vitória aos seus soldados.

O relógio mostrava que vinte minutos se tinham já esgotado, quando El Comandante teve na cabeça a explosão de prazer das massas. A bola, selada e com destino garantido nas redes das gentes da Trofa, foi salva quase miraculosamente por Tiago Pinto, o rebento de outro Pinto “amigo” de Paulinho Santos. Uma. Duas. Três. Estoicamente, o Trofense resistia, acossado.

Os nervos [pelo menos cá em casa] aumentavam, a cada novo falhanço. Fantasmas de outros tempos, sempre dispostos a atazanarem o sistema nervoso de um adepto. Com Hulk estranhamente colado à linha, do lado direito, sem o fulgor de jornadas anteriores, e com a defesa, nomeadamente Fucile, a falhar passes de forma compulsiva, os azuis e brancos entraram no pior período da partida, errando lateralizações, perdendo os mecanismos de ligação entre os sectores. E depois, mesmo à beirinha do intervalo…

Alguém a querer protagonismo, ou aparecendo no bem tratado relvado do Dragão com a lição bem estudada, “esqueceu-se” das leis básicas do jogo. Carga dentro da área é passível de marcação de grande penalidade. Mas, ironicamente, parece que existem dois livros de leis de jogo. Um, para os outros encontros, onde lances como o que Fucile é abalroado são marcados. O outro, para ser usado na destrinça dos lances em que o FCP intervenha. E lá, nesse obscuro livro, deve existir uma alínea qualquer onde se legitima que “qualquer falta sobre um atleta trajando as ignominiosas camisolas com as listas verticais azuis e brancas, dentro da área, deve ser transformada em carga de ombro. Ponto”.

E assim chegou-se ao intervalo. Apetecia-me escrever que da segunda parte não reza a história. Mas não posso. No hino ao desperdício, com oportunidades desperdiçadas de forma inacreditável, o Porto deita fora a liderança [tal como na 5ª jornada, derrotados depois pelo Leixões, em casa], somando 180 minutos no Dragão sem conseguir… marcar um golo. E é aí que reside o busílis da questão. A ausência de um verdadeiro matador, um ponta de lança letal, que consiga dar seguimento ao caudal ofensivo.

É, claro, com um travo amargo na boca que escrevo as últimas linhas. Apetece-me barafustar. Gritar a minha revolta. Soltar a raiva que me consome, por ver o 1º lugar fugir, antes de uma deslocação tremendamente complicada. Em consciência, julgo que não o devo fazer, aplacando a frustração de outra forma. O Porto realizou uma exibição meritória, pecando no já referido capítulo da finalização. Nesse abundante jogo ofensivo, os pupilos de Jesualdo tiveram dezenas de remates, aliados a cerca de 15 cantos. Todos com o mesmo destino. Defendidos, com maior ou menor dificuldade pelo guarda-redes opositor, ou esbarrando na porfiada defesa trofense. A inépcia atacante teve hoje o seu momento de esplendor, quase como se alguma maldição pendesse sobre os artilheiros vestidos de azul.

Racionalmente, não esperava nenhum golpe de génio vindo do banco. Os coelhos, saídos milagrosamente das cartolas, apenas aparecem em espectáculos de magia. O Porto não tem plano B, quando a situação do encontro obriga a mudança de planos. No esquema táctico do técnico portista as substituições estão encontradas, desde há muito. O fetiche por Mariano [a defesa-direito, com a passagem de Fucile para o flanco oposto, pouco acrescentou, sendo várias vezes ultrapassado com facilidade por Tiago Pinto], a entrada de Guarin e, nos instantes finais, o recurso a um descrente Farías, sinal de que o desespero já tinha tomado as rédeas da partida. Não existe espontaneidade, uma leitura de jogo diferente. Nada. Apenas o velho e bom esquema, inalterado, partida a partida.

Um balde de água fria, bem gelada, abateu-se sobre os indomáveis que resistem a temperaturas quase glaciares para apoiar os seus heróis. O tempo dirá quanto valem estes dois pontos, hoje desperdiçados de forma tão inconcebível. Fica no entanto uma mensagem de esperança. Em quem nos deu já tantas alegrias. A próxima jornada, tremenda, criará um embate de titãs, perante um contendor minhoto com recursos que colocam em sentido os seus adversários. Será preciso um Porto bem mais acutilante do que hoje, mortífero na finalização, para que novo desaire seja evitado.

Melhor do Porto: Rodriguez. As armas usadas são já conhecidas. Litros de suor, que empapam o algodão da camisola. Raçudo, imagem de marca, quase como uma segunda identidade, procurando amiúde rebentar com a resistência alheia. Criou jogo e lances suficientes para que o epílogo tivesse um final alternativo, mais consentâneo com os nossos desejos. Foi indomesticável, acreditando que era possível vencer, mesmo até ao derradeiro silvo do árbitro. Merecia ter sido feliz. Esteve quase, em descontos, quando o seu remate se encaminhava para as redes desertas. Guarín fez o “favor” de estragar tudo, desviando o esférico…

Arbitragem: Ponto prévio, para evitar polémicas avulsas. Não foi pela arbitragem que o Porto desperdiçou dois pontos preciosos. Nunca esse argumento será utilizado como arma de arremesso, justificando incapacidades próprias ou camuflando a falta de sorte. Mas custa-me ver que os critérios são diferentes, em lances idênticos. E mais não digo…

ps: Logo e artigo publicados originalmente no Bibó Porto.

4 de janeiro de 2009

Vitória sofrida...mas justa

Liga Sagres, 13.ª jornada
Estádio da Madeira, Choupana.
Hora: 18.30

Árbitro: Pedro Proença (Lisboa)

(Equipas oficiais)


NACIONAL: Bracalli, Patacas, Maicon, Felipe Lopes, Nuno Pinto, Cleber, Luís Alberto, Edson Sitta, Ruben Micael, Fabiano e Mateus.
Suplentes: Douglas, Halliche, Igor Pita, Bruno Amaro, Juliano, João Aurélio e Miguel Fidalgo.
Treinador: Manuel Machado

FC PORTO: Helton, Fucile, Rolando, Bruno Alves, Pedro Emanuel, Fernando, Raul Meireles, Lucho, Rodríguez, Lisandro e Hulk.
Suplentes: Nuno, Stepanov, Benítez, Pelé, Guarín, Mariano, Farías.
Treinador: Jesualdo Ferreira

RESULTADO: Nacional, 2 - Porto, 4

Ufa. Apetece respirar de alívio, pois o panorama na Madeira esteve bem negro, com o Porto a, finalmente, ser bafejado pela sorte nos últimos instantes.

O início do encontro parecia prenunciar o fado de outrora. Bola na barra, disparada por Lisandro, na sequência de um livre de Meireles, elevando para 14 os encontros imediatos do esférico com os postes dos adversários. E, como habitualmente, no desenrolar da bobine do filme, o mesmo de sempre. Primeira descida do Nacional e...golo.

Balde de água fria, aos 14 minutos, premiando apenas a solidez defensiva dos da casa, pois nada de relevante tinham feito em termos ofensivos.

O Porto continuou a porfiar, na ânsia de alcançar a igualdade, ainda no primeiro tempo, mas Hulk e Lucho falharam os seus intentos, com Bracalli a defender com perícia as suas redes.

Ao intervalo, Jesualdo resolve mexer na estrutura defensiva a equipa, retirando Pedro Emanuel, dono do lado esquerdo da defesa, por troca com Mariano. Procurava, assim, dotar a equipa de maior profundidade atacante.

Os azuis e brancos entraram, como se diz na gíria, "com tudo", pressionando o reduto defensivo dos madeirenses. O prémio, justo, aconteceu aos 52 minutos, com Hulk a surgir de rompante para igualar a contenda, após defesa incompleta do guardião opositor ao remate de Lucho.

O jovem brasileiro, sempre bastante activo, recolhia os louros do 1º golo portista em 2009. E não se ficou por aqui. Sempre com a baliza na mira, Hulk disparava de qualquer lado. Fê-lo, quase com sucesso, pouco depois, com Bracalli em apuros para suster o remate.

O desejado 2º golo aconteceu aos 75 minutos, já com Guarin em campo rendendo Meireles. Rodriguez, após um cruzamento de Lucho, tem um momento sublime, merecedor de todos os encómios. O uruguaio desfechou um pontapé de bicicleta, assinalando assim mais uma exibição meritória.

Parecia que o triunfo estava garantido. Falsa expectativa. O Nacional reagiu bem. Aliás, extremamente bem, empurrando o Porto para trás, e criando sérios embaraços à habitual solidez defensiva dos Dragões.

O empate, aos 79 minutos, acentuou a sensação de injustiça, parecendo que a 13ª jornada seria aziaga para as hostes portistas.

Os últimos 10 minutos foram eléctricos, com oportunidades de parte a parte. Até que, quando parecia que os comandados de Jesualdo perderiam mais 2 pontos, Felipe Lopes corta um lance com a mão, dentro da área. Oportunidade soberana que Lucho não enjeitou. 3-2 para os Dragões.

Ainda houve tempo para Hulk, em grande trabalho individual, encerrar as hostilidades, num triunfo suado, mas inteiramente justo.

Cada vez mais fortes e a provocar pesadelos a quem vai à frente. Vai uma aposta?

17 de dezembro de 2008

Ficaram a ver Estrelas

Liga Sagres, 9.ª jornada
Hora: 20:45
Árbitro: Paulo Baptista (Portalegre)

(Equipas oficiais)

E. AMADORA:Nelson; Hugo Gomes, Mustafá, Hugo Carreira, Moreno; Fernando Alexandre, Vidigal e Marcelo Goianira; Celestino, Silvestre Varela e Anselmo.
Suplentes: Filipe Mendes, Pedro Pereira, Jardel, Rui Varela, N'Diaye e Nélson Pedroso.
Treinador: Lázaro

FC Porto:Helton; Fucile, Rolando, Bruno Alves, Pedro Emanuel; Fernando, Raul Meireles e Lucho; Rodríguez, Lisandro e Hulk.
Suplentes: Nuno, Benítez, Stepanov, Guarín, Tomás Costa, Mariano e Farías.
Treinador: Jesualdo Ferreira

Continua a recuperação portista, nesta caminhada que se pretende de glória, rumo à conquista do ceptro nacional. Na realização do encontro referente à 9ª jornada, em atraso, os comandados de Jesualdo somaram os 3 pontos, objectivo primordial para o ataque ao 1º posto da classificação.

Os jogos na Amadora colocam-me sempre apreensivo. Campo difícil, frente a um adversário abnegado, com demasiadas reminiscências de embates anteriores, com resultados frustrantes. Na mente de todos o empate, raiando o escandaloso, permitido na temporada finda, com os Dragões a sofrerem 2 golos de rajada, nos últimos minutos...

Não sei se foi com esse pensamento que os atletas portistas entraram em campo. Mas foi uma entrada de rompante. Fulgurante. Dominadora. E demolidora. Pressão a todo o campo, asfixiando os anfitriões, que foram sobrevivendo graças à prerícia de Nelson, guardião amadorense, responsável por adiar o golo azul e branco o mais possível.

Se, nos primeiros 15 minutos, o guarda-redes da casa brilhou [espantosa a defesa a um remate em zona frontal de Lucho, depois de primorosa assistência de Hulk], nada pode fazer quando Fucile centrou, com medida adequada, para a cabeça de Lisandro. Servido a preceito, o argentino fez o que mais gosta. Foi letal. E abriu as hostilidades...

O Porto era dono e senhor da partida, controlando os tempos de jogo, impondo a sua mais valia. Rodriguez, aos 20 minutos, poderia ter sentenciado definitivamente a história do encontro. Mas o futebol não é feito de ses. O uruguaio permitiu nova e decisiva intenvenção de Nelson. E a máxima de nuestros hermanos, de que "no acredito en brujas, mas que las hay, hay" visitou a Reboleira.

Contra a corrente do jogo, de forma totalmente surrealista, o Estrela tem uma prenda de Natal antecipada. Fucile alivia uma bola contra o corpo de Moreno. Caprichosamente, o esférico descreve um arco estranho, sobrevoando o espantado Helton. Empate. Balde de água fria, mesmo assim incapaz de calar o fervor dos bravos guerreiros que, na bancada, apoiavam incessantemente.

O Porto não se desuniu. Continuou com velocidade, procurando os flancos, onde Rodriguez, Lisandro e Hulk criavam espanços e lances de perigo. Por momentos, achei que esta seria uma noite igual a outras, quando Meireles falha, de forma impensável, o desvio à boca da baliza.

O Porto sofreu novo golpe, à beirinha do intervalo, com o juiz da partida a fazer vista grossa a uma grande penalidade evidente, por mão na bola de Hugo Carreira.

Foi mesmo sob o apito para o intervalo que Rodriguez se redimiu do seu falhanço anterior, marcando o 2º golo portista, após a marcação de um canto. Justamente, o Porto ía para o intervalo na posição de vencedor.

A segunda metade foi uma cópia fiel da primeira. Um Porto resoluto, mandão, frente a um Estrela abnegado, mas incapaz de contrariar a tendência da partida. Apesar disso, nos poucos ataques feitos, a equipa da Amadora empata, contra-natura, a partida.

Vidigal, imitando Rodriguez na marcação de um canto, coloca o marcador num teimoso 2-2. Motivos de preocupação para Jesualdo, com a defesa a claudicar, de forma infantil, num lance que deverá ser analisado pela equipa técnica.

Poderia ser problemático, com meia-hora para jogar, se no minuto seguinte Hulk não entrasse em acção. É um lugar comum dizê-lo, mas o golo do brasileiro vale, por si só, a ida a um Estádio.

Monumental remate, em arco, de fora da área, dispersando de vez as nuvens negras que ameaçavam abater-se sobre os Dragões. Um golaço!

O Estrela acabou ali. O 4º golo, na marcação de um livre directo, obra e graça da inspiração de Cebola, apenas veio coloca uma pedra sobre o assunto. Venha o próximo!


Melhor do Porto: Hulk, pelo importantíssimo golo. Mas não só. Raides habituais, dilacerando a defesa contrária, ofertando a bola em condições vantajosas várias vezes. Mas também Lisandro, sempre activo na frente de ataque, incorporando a raça que é um apanágio do clube. E, para finalizar, Rodriguez. Algumas vezes incompreendido, o uruguaio é sempre um exemplo de trabalho, esforço e dedicação. Autor de dois tentos, afastando os seus demónios interiores, permitindo que finalmente o seu futebol se exteriorize.

Arbitragem: Mácula grosseira no penalty claro cometido por Hugo Carreira, numa altura em que o marcador assinalava um periclitante 1-1. Bem na expulsão, perto do final, do mesmo jogador, por acumulação de amarelos.

2 de novembro de 2008

À espera do milagre...

Com a 3ª derrota consecutiva averbada, percebe-se que apenas um milagre poderá salvar a pele de Jesualdo, com a contestação a ganhar foros de revolta. A manutenção do decano técnico azul e branco dependerá, agora, das próximas e cruciais partidas a realizar no espaço de uma semana.

A deslocação a Kiev, a meio da semana, para a disputa da Champions, e nova visita a Alvalade, para disputar um encontro a eliminar, para a Taça de Portugal, constituem desafios hercúleos, verdadeiras finais para um plantel que, com a derrota na Figueira, bateu no fundo.

O Porto foi igual a si próprio, na deslocação ao reduto da Naval. Uma pálida e desbotada cópia da equipa que transporta as insígnias de campeã nacional, realizando nova e descolorida exibição. Apáticos, conformados, os atletas portistas apenas e só se podem queixar de si próprios, numa altura em que mesmos os Deuses da Sorte lhes viraram definitivamente as costas.

Por esta altura, na blogosfera de tendência azul e branca, discute-se de tudo um pouco. Comossionamento, chorudos prémios dos administradores, política de contratações, numa evidente e deplorável tentativa de crucificação de qualquer um, de forma a aplacar a ira da turba.

À 7ª jornada seria impensável, a alguém, deitar a toalha ao chão, num sinal de submissão e desistência. Acredito que o Porto não o fará. Mas, face ao que se vê, dentro do campo, urge uma tomada de posição, uma medida profiláctica que impeça o descalabro completo de um plantel que, tendo fragilidades, também possui qualidade para fazer muito mais.

Jesualdo, com o seu habitual e prosaico discurso politicamente correcto, demonstra a cada dia que não tem a capacidade de inverter a tendência de queda, num plantel com soluções suficientes para lutar pelo título.

Os próximos sete dias serão, por isso, efervescentes. Resta-nos aguardar, com serenidade, pelo que aí vem...

26 de outubro de 2008

A Lei de Murphy

25 de Outubro de 2008
Liga Sagres 2008/2009
Estádio do Dragão, no Porto
assistência: 37.408 espectadores
árbitros: Paulo Baptista (AF Portalegre), José Braga e Carlos Pereira; Pedro Vilaça.

FC Porto: Nuno; Sapunaru, Rolando, Bruno Alves e Lino; Raul Meireles, Tomás Costa e Lucho «cap.»; Hulk, Lisandro e Rodríguez.Substituições: Lino por Candeias (32m), Sapunaru por Mariano (64m) e Rodríguez por Farías (75m).
Não utilizados: Ventura, Pedro Emanuel, Guarin e Fernando.
Treinador: Jesualdo Ferreira.

Leixões SC: Beto; Vasco Fernandes, Joel, Elvis e Laranjeiro; Bruno China «cap.», Hugo Morais, Roberto Sousa e Braga; Diogo Valente e Marques.
Substituições: Diogo Valente por Zé Manel (62m), Marques por Roberto (72m) e Braga por Sandro (88m).Não utilizados: Berger, Ruben, Diogo Luís e Nwoko.
Treinador: José Mota.

Disciplina: Amarelo a Joel (35m), Lisandro (37m), Sapunaru (64m), Braga (76m), Elvis (77m) e Beto (90m).
Golos: Bruno China (3m), Braga (29m), Lucho (36m g.p.), Lisandro (61m) e Braga (79m).

Porto. 21 horas. Estádio do Dragão. Não é um duelo de morte aquele que tem hora marcada. Nem será, numa linguagem mais belicista, a "mãe de todas as guerras". Mas é um jogo difícil. Tremendamente difícil, mais do que o nome do adversário deixa entender.

Do outro lado do ringue, um contendor forjado no sofrimento, na dureza da vida, na capacidade de sofrimento. Uma mera extensão na empatia que o clube tem com as gentes do Mar. Homens duros, de rostos causticados pelos golpes o destino, mas fazendo da não desistência a palavra-chave das suas vidas...

Todos nós, irmanados no amor incondicional pelo emblema do Dragão, queríamos que este jogo constituísse uma reconciliação. Com as vitórias. Com os grandes espectáculos. Jesualdo deu o mote. Afastando os habituais conservadorismos tácticos, libertando a equipa de grilhões defensivos, mudou a face do onze inicial.

Tirou o infatigável mas imaturo Fernando, colocando no seu lugar Meireles, capaz de oferecer outra dinâmica ao lugar de pivot defensivo. Optou pela racionalidade, abdicando do fetiche por Mariano Gonzalez, colocando no posto de médio direito Tomas Costa. E, por último, reforçou o peso atacante da equipa, dotando-a de capacidade de choque, poder de explosão e vivacidade, com a entrada de Hulk.

Os dados estavam lançados. Mas os caprichos da fortuna têm destas coisas, numa espécie de reedição da Lei de Murphy. "Se algo pode correr mal, correrá mal..."

Três míseros minutos para comprovar a teoria. Três. Depois de sistemáticas e repetitivas bolas aos postes dos adversários, em partidas anteriores, o que faltava acontecer a este Porto? Bem, a resposta foi dada por Bruno China, quando cabeceou sem oposição para o fundo das redes de Nuno. Vir de uma derrota e começar o jogo seguinte a perder. Os dados foram alterados.

E a inquietude tomou conta de muito boa gente. Seria este Porto de Jesualdo capaz de operar, uma vez que fosse, uma reviravolta no marcador?A equipa não se desuniu. Nem deu mostras de intranquilidade. Aproveitou o esperado acanhamento ofensivo do opositor para ganhar metros. Procurou utilizar a velocidade nos flancos, arma prioritária para desgastar a defesa que se antevia porfiada.

Lino e Rodriguez começaram a combinar na perfeição, procurando servir com as suas investidas atacantes Lisandro e Hulk. O uruguaio deu o mote, numa investida que é a sua imagem de marca. Técnica mesclada com raça. Valeu o corte in-extremis de um defesa, para canto. O Porto carregava. Lisandro tem um excelente movimento, dentro da área, rodopiando e rematando, para uma defesa segura de Beto.

O Leixões não se desunia. Cortava os caminhos para a baliza, mantinha a tranquilidade como apanágio de manutenção do seu jogo, espreitando sempre o contra-ataque. Mas Murphy, quem quer que tenha sido, era um profeta. Só podia...

Rolando, em posição privilegiada no ataque, falha um golo certo. Cruzamento perfeito de Hulk, para uma entrada de rompante do jovem central portista. A cabeçada, violenta, errou por pouco o alvo. E na resposta, novo e doloroso balde de água fria. Jogada de ataque leixonense, de uma simplicidade atroz, e Braga a aparecer completamente isolado perante um desamparado Nuno.

O Dragão assistia, incrédulo e de assobio fácil, ao aparente desmoronar de uma equipa. Golpe duro de encaixar, é certo, mas Jesualdo foi lesto na resposta.Tirou Lino, meteu Candeias. Baixava Tomas Costa para o posto de defesa-esquerdo, numa evidente prova de polivalência do médio argentino. A equipa puxou pelos galões. Rodriguez tem um disparo fenomenal, de fora da área, para uma defesa elástica de Beto. E, no negrume que se antevia, com as nuvens tempestuosas a convergirem para a Invicta, um raio de luz. De esperança. Mantendo a crença viva e palpitante.

Passe em profundidade para Hulk e este, procurando desenvencilhar-se de Joel, o seu marcador, é derrubado na área. Penalty claro. Inequívoco. E que El Comandante, com a frieza costumeira, converteu em golo.O intervalo chegou logo de seguida, cerceando a possibilidade de empate. 15 minutos de nervosismo. De ansiedade. Mas também de fé. Toneladas dela.

Foi um Porto esperado o que apareceu no relvado, na 2ª metade. Mais pressionante, empurrando o Leixões para a zona limite. Mas também um Porto menos clarividente, mais acossado pelo tempo. O único momento de frisson, nos 15 minutos que correram de forma galopante, foi uma escorregadela de Beto, escorregando ao deter um remate de Bruno Alves e, com isso, a quase introduzir a bola na própria baliza.

O pontapé no marasmo foi dado pelo inconformado Lisandro. Brilhante na desmarcação, soberbo na finta sobre o defesa adversário, mortífero no remate cruzado, provocou uma ebulição no Dragão. Golo magnífico, um anti-depressivo necessário, inoculado na altura certa. Com meia-hora para jogar, os 3 pontos eram finalmente vislumbrados no final do túnel.

O jogo entrou num período trepidante. Convencionou-se chamá-lo de "parada e resposta". E foi assim mesmo. Uma montanha russa de emoções. O Leixões revidava. O Porto ameaçava o terceiro. O último reduto azul e branco passou por novo calafrio. Balanceados para uma ofensiva total, descurada a cobertura das laterais, já com Mariano em campo, a servir de defesa-esquerdo, o Leixões introduz a bola na baliza de Nuno, pela terceira vez. Valeu a prontidão do fiscal de linha, anulando [mal] o golo aos pupilos de José Mota.

Não se tinham ainda esgotado os protestos, quando a melhor jogada colectiva da partida, tendo sempre como epicentro Lisandro, esbarra nas luvas de Beto. Um desenho geometricamente perfeito, com lateralizações rápidas, tabelinhas estudadas, colocando Licha na cara do guardião adversário. O "plastic-man" de Matosinhos agarrou o couro, mais uma vez.Beneficiando do claro adiantamento da equipa, o Leixões ia-se empertigando. E, quando as coisas correm bem a uns, pelos vistos correm bem até ao fim. Novo contra-ataque, o meio-campo do Porto totalmente desconjuntado, e Braga a fuzilar Nuno, obtendo um golo de belo efeito. Uma machadada cruel no ânimo de uma equipa que procurava, de forma denodada, o golo da vitória.

Novo golo do empate esteve perto, com um remate de Lucho a sair ao lado. A equipa era já um monte de remendos, desarticulada, lutando e correndo apenas pela honra. E, para quem já se tinha esquecido de Murphy, é sempre bom relembrar. "Se algo pode correr mal, correrá mal..."

O empate seria sempre um mal menor. Mas impediria a derrota. E, à beira do apito final, o poste - sempre o poste - entra em jogo, reclamando o protagonismo perdido. O remate de Lucho parecia destinado a minimizar a perda de pontos. Mas embateu nos guardiões da baliza do Leixões. Nunca, como hoje, se sentiu tanto que os Deuses da Sorte nos viraram as costas...O apito final apenas desligou a máquina. O Porto já estava derrotado. O Leixões vencia com inteira justiça.

Não faço mais comentários. Não por falta de respeito por quem visita - e comenta - neste espaço. Mas porque me habituei, sempre, a argumentar de forma racional. Algo que, actualmente, é impossível de conseguir. Por isso, prefiro não embarcar no imediatismo. No facilitismo. Não faltará quem peça a cabeça de Jesualdo, numa bandeja. Ou quem, como habitualmente, invective a SAD. Ou, outros, que aproveitem a queda para apontar erros na política de contratações. Eu não participo nesses linchamentos colectivos. Por uma questão de princípios...

Não que me ache uma espécie de provedor do Porto, ou um defensor intransigente da política da SAD. Também não sou um adepto fiel do modus operandi de Jesualdo. Mas, quando se colecciona a 2ª derrota caseira, em apenas 4 dias, o tempo será mais propício a uma meditação. A equipa, e a sua estrutura directiva, necessitam de calma. Para pensar. A época está longe de estar comprometida. Mas algo vai mal, muito mal, no reino do Dragão.

Melhor do Porto: Lisandro. Não pelo golo. Mas pela raça. Pela postura. Pelo cerrar dos maxilares. Por ter empunhado a flâmula da esperança. Por ter lutado. Quanto ao resto, a mediania do costume. Jesualdo mexeu, e bem, na equipa inicial. Deu o sinal que muitos reclamavam. Uma equipa mais ofensiva. Retirou Fernando, colocou Hulk. Mas com os dois golos concedidos, as mexidas soaram sempre a desespero. E a equipa, apesar da reacção, acabou totalmente perdida, desconjuntada, uma amálgama de erros que a colocaram à beira do precipício. Depois, foi só dar um passo em frente...

Arbitragem: Mal. Como de costume, nada de bom se pode esperar de Paulo Baptista, intérprete medíocre de apito na boca. Mas hoje, nem por aí se pode justificar o que quer que seja. O erro maior foi, inclusivé, favorável às nossas pretensões, com um golo - seria o 3º - mal anulado a Zé Manuel. Um disparate maior a juntar a uma série impressionante de lances mal ajuizados, com predominância no capítulo disciplinar.

Há noites assim. Tristes. Desencantadas. Apetecia-me não estar de serviço. Mandar a escrita "às urtigas". É demasiado doloroso escrever, numa espécie de repetição, sobre as incidências da partida. Estou anestesiado. Sinceramente, não sinto nada. Talvez uma pontada de desilusão. Mas, por mais paradoxal que pareça, estou conformado. E isso, mais do que a 2ª derrota caseira em 4 dias, é que me preocupa. A forma insidiosa como se chegou a este estado. Amorfos. Descrentes. Apáticos.

ps: Artigo publicado originalmente no Bibó Porto.

6 de outubro de 2008

Toma lá disto!

Foi o primeiro capítulo na redenção de uma equipa que tinha batido no fundo. O adversário, putativo candidato ao título, não podia ser melhor. Ideal para sarar feridas abertas. E o Porto, sem ser brilhante, soube ser digno. Estóico. Foi uma equipa, na verdadeira acepção da palavra. Combtiva. Coesa. Implacável.

No meio da exibição esforçada, mesclando qualidade com transpiração, o momento do jogo é, claramente, o fabuloso golo de Bruno Alves. O momento da noite. A forma correcta de responder à injustiça. Bruno Alves foi enorme. O Porto tinha visto como o opositor tinha empatado o jogo. Um lance maculado. Uma jogada de bastidores. Um penalty fajuto. Com a raiva a fervilhar no sangue, o defesa-central portista viu ali uma oportunidade. Pegou na bola. Acariciou-a. Colocou-a no local de marcação da falta. E, naquele momento, os fantasmas de antigos jogadores azuis-e-brancos, exímios na nobre arte de marcar livres, entraram no relvado. Branco. Geraldão. Esquerdinha. Aconselharam Bruno Alves. Incentivaram-no, ao ouvido, murmurando palavras épicas. Passaram o testemunho, de geração vencedora, para geração vencedora.

Bruno Alves sentiu o apelo. Ancestral. Rematou. Com classe. E a bola sobrevoou a barreira. Suavemente, Descrevendo um arco perfeito. Desceu, encontrando o local por onde queria entrar. E a noite de Alvalade presenciou o momento em que o couro beijou a rede desprotegida. GOOOLLLOOOO. É assim que os campeões respondem à adversidade.

ps: Vídeo retirado do Bibó Porto.