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29 de março de 2008

Quem fala assim....

Um breve "cheirinho" da entrevista de Jesualdo Ferreira ao Jogo, hoje. Acutilante, sagaz e inteligente na forma como aborda os temas, mesmo os mais controversos, o treinador portista revela cada vez mais o prazer que lhe dá treinar os tri-campeões nacionais, tendo inclusivé alojado a cor azul e branca no coração. Mister, que fala assim merece o meu apreço...

Paulo Bento afirmou que na base do sucesso do FC Porto está a regularidade, competência, organização e hábito de ganhar. Que comentário lhe merecem estas declarações do treinador do Sporting?
São declarações que revelam a opinião de um treinador de uma equipa grande de Portugal, que conseguiu entender o FC Porto. É um motivo de satisfação saber que os nossos colegas de trabalho reconhecem as qualidades das nossas equipas - sobretudo quando, muitas vezes, não é isso que acontece com a comunicação social nem com outros agentes do futebol - e, no caso do Paulo Bento, essas afirmações têm uma importância acrescida, porque foram proferidas por um treinador de uma equipa que é adversária directa do FC Porto.

Já não é a primeira vez que ouvimos treinadores de equipas rivais do FC Porto, sobretudo depois de saírem dos seus clubes, fazerem este tipo de afirmações. Pensa que é por aí que o FC Porto marca a diferença no futebol português?
Esta é a segunda época em que estou no FC Porto e já deu para perceber que há coisas diferentes no clube, que nos ajudam a ganhar. Esta época, parece que as pessoas estão muito zangadas, pois consideram que a Liga não é competitiva. A determinada altura até pensamos que tínhamos de perder alguns jogos para isto ficar mais competitivo... Por vezes, parece que interessante foi o campeonato de há quatro anos, quando o Benfica se sagrou campeão. Mas gostava de recordar que o FC Porto está em primeiro porque ganhou os seus jogos, porque perdeu poucos pontos e porque os adversários perderam mais pontos. O problema não é da Liga, mas sim dos seus competidores e da forma como se tem de competir. Às vezes, dá a sensação de que ganhar no FC Porto não vale nada nem tem valor sob o ponto de vista das competências das pessoas que aqui trabalham. Ora, essa análise do Paulo Bento parece-me bem definidora daquilo que é a ideia de quem é profissional e de quem entende estas coisas nas perspectivas profissionais em que trabalhamos.

Mas esperava, no início da temporada, que os adversários directos perdessem tantos pontos?
A questão aqui é simples. Todos vão jogar contra todos. No ano passado, por exemplo, houve uma altura em que o FC Porto não conquistou tantos pontos e o Sporting aproximou-se na classificação. Nesse momento, a boa carreira que estávamos a fazer acabou por ser colocada de parte. De um momento para o outro, a melhor equipa do campeonato já era o Sporting. Penso que, esta temporada, isso já não poderá acontecer - e espero que não aconteça -, mas acredito sinceramente que não vão valorizar aquilo que foi a carreira do FC Porto, que, essas pessoas, vão tentar arranjar alguma coisa que nos coloque em baixo. E fazer isso é revelador de uma enorme falta de rigor profissional.

De que forma o plantel, assim como o seu treinador, recebeu a notícia de que o presidente do clube iria ter de responder em tribunal por um processo relacionado com eventual corrupção desportiva?
O plantel do FC Porto tem um posicionamento muito claro relativamente ao clube: são apenas jogadores de futebol, contratados para fazer um bom trabalho e ganhar. Agora, não sei se o presidente do FC Porto está a ser julgado pelos 44 títulos que conquistou… Quanto ao resto, são assuntos que não nos dizem respeito.

Como encontrou os jogadores que vieram das selecções nacionais?
Fisicamente, algo desgastados em determinados casos. Do ponto de vista anímico, também há uns melhores do que outros, como é normal, porque é sempre mais reconfortante ganhar. Mas, a partir do momento em que regressam ao FC Porto, voltam a concentrar-se apenas nos objectivos da equipa.

Tem a mesma opinião de Pinto da Costa sobre Lisandro, quando referiu que, para jogar apenas quatro minutos, mais valia o avançado não ter ido?
Considero que foi importante ter ido. Estar numa selecção, nomeadamente na argentina, é sempre um marco importante para qualquer jogador. Agora, estou de acordo que, depois de ter viajado tantos horas e com tantas expectativas, os quatro minutos foram pouco, sobretudo para a qualidade do jogador e para aquilo que ele podia ter emprestado à selecção argentina. Por isso, estou de acordo com o meu presidente, apesar de respeitar a decisão do seleccionador argentino.

Este caso reporta-se a um jogo da época 2003/04, numa altura em que Jesualdo Ferreira nunca tinha trabalhado no FC Porto. Sentiu, de alguma forma, durante todos esses anos, que o clube era beneficiado pelas arbitragens?
Não. O que eu sentia era que o FC Porto era diferente dos outros e que ganhava mais vezes, para não dizer sempre, durante mais de 25 anos. Não reconhecer a competência das pessoas que trabalham aqui seria, no mínimo, uma demonstração de grande falta de rigor e honestidade intelectual, porque não se pode julgar a qualidade de uma pessoa que se prepara para conquistar o 45.º título no futebol. Agora, se é para analisar outras coisas, não sou juiz, nem advogado, nem quero ser; também não conheço os processos, nem quero conhecer. Sobre isso, não me pronuncio.

Saídas (ainda) não preocupam
Bosingwa tinha declarado, na véspera, a intenção de abandonar o FC Porto no final da temporada, sendo apenas um dos muitos nomes que circulam por essa Europa fora. Jesualdo Ferreira explicou ontem o que sente quando ouve falar de uma possível debandada. "Até ao final da época, e esperamos que seja a 18 de Maio [final da Taça de Portugal], esses assuntos não nos preocupam. As declarações dos jogadores, que são livres de dizer o que sentem, são entendidas, por nós, no contexto em que são dadas. Neste momento, estamos concentrados apenas no campeonato e na Taça".

21 de fevereiro de 2008

Guilherme Aguiar dixit

Guilherme Aguiar, de 55 anos, ex-director executivo da Liga, é um dos mais conhecidos adeptos do FC Porto, fruto da notoriedade televisiva. Sempre crítico da Liga, desta vez elogia o trabalho de Hermínio Loureiro. A entrevista, concedida a um dos pasquins que tem como passatempo prioritário o ataque vil ao FC Porto, reúne algumas idéias interessantes, abordando questões cruciais como a futura sucessão de Pinto da Costa. Corrosivo, fica para a história a frase com que responde à primeira pergunta: "é pena não haver mais competitividade na Liga". O Correio da Manhã deve ter engolido o sapo inteirinho....

- Correio Sport – A hegemonia do FC Porto parece cada vez mais vincada...
- Guilherme Aguiar – Infelizmente, porque é pena não haver mais competitividade. O FC Porto afastou-se dos mais directos rivais, fruto de uma organização que tem um rosto: Pinto da Costa. Nos últimos 25 anos é o denominador comum nas vitórias do FC Porto.

- Acha que o FC Porto vai ultrapassar o Benfica em número de títulos?
- Se mantiver a mesma hegemonia ultrapassa dentro de 15 anos. E os êxitos do FC Porto foram mais difíceis do que os do Benfica, que era o clube da capital e do poder instituído.

- Como ficará o FC Porto quando Pinto da Costa deixar a presidência?
- Não podemos fazer uma análise correcta sobre quais serão as consequências. Certo é que ninguém o conseguirá igualar neste século.

- Guilherme de Aguiar poderá ser o sucessor de Pinto da Costa?
- Não alimento esse objectivo nem tenho quaisquer ambições de suceder a Pinto da Costa. Mas na vida não coloco nada de parte. Os projectos em que me envolvo não partem de pressupostos pensados, as coisas vão acontecendo. Mas não tenho essa ambição e não estou a ver no meu horizonte próximo ou remoto que possa vir a ser presidente do FC Porto.

- Pinto da Costa já está a preparar a sucessão?
- O FC Porto não é uma monarquia. Quando ele sair é que se verá que tipo de dirigente se poderá abalançar a essa tarefa. Mas o FC Porto deixará de ser gerido por uma só pessoa e os grupos económicos serão importantes para encontrar o sucessor de Pinto da Costa. Os sócios também terão uma palavra a dizer mas os dados mudaram.

- Não são os sócios do FC Porto que escolhem o presidente do clube?
- O FC Porto não é só um clube desportivo, por muito que se tente distrair as pessoas. É um grupo económico, que não dá grande lucro mas tem uma grande valia competitiva. Em 1983, Pinto da Costa candidatou-se dizendo “sou portista, tenho um passado”, foi de porta em porta e acabou eleito. Agora as coisas são muito diferentes e, volto a dizer, os grupos económicos terão uma palavra muito importante.

- De que grupos está a falar?
- Dos grupos que forem accionistas do FC Porto na data em que Pinto da Costa abandonar.

- Tem relações com os dirigentes do FC Porto, o clube não lhe pede que faça passar mensagens?
- Não, porque eu não sou um representante do FC Porto, sou um mero adepto que fui convidado a participar neste programa (‘O dia seguinte’, na SIC) e noutros no passado. Esses contactos prévios não acontecem, eu não represento a Direcção do FC Porto. Sou amigo de Pinto da Costa mas ele gere o FC Porto sem precisar de falar comigo e eu também sou adepto sem ter de pedir o seu apoio. Temos uma salutar independência.

- Como amigo, Pinto da Costa nunca lhe deu um puxão de orelhas por algo que tenha dito como comentador?
- Nem eu admitiria levar um puxão de orelhas. E temos muitas vezes opiniões diferentes.

- Não é estranho Jesualdo Ferreira não ter ainda renovado?
- Quem conhece Pinto da Costa sabe que ele normalmente renova com os treinadores quando eles estão em baixa e Jesualdo está em alta. Jesualdo só sairá do FC Porto em condições anómalas, só por um litígio que possa existir ou por um contrato milionário que apareça. Em Portugal, tenho a certeza de que ele não troca o FC Porto por nenhum outro clube.

- Como analisa o desempenho da actual Direcção da Liga, presidida por Hermínio Loureiro?
- Tem sido positivo. Angariaram uma série de receitas de patrocinadores... Só há um ponto negativo, que é não terem introduzido um sistema de fiscalização das contas dos clubes. Os orçamentos apresentados pelos clubes no início da época não são correctos, as receitas são empoladas face às despesas, mas a Liga não fiscaliza.

- O que lhe parece a actuação da Comissão Disciplinar (CD) da Liga?
- É muito virada para o ‘show-off’’, fala-se muito e faz-se pouco. Há demasiada violência nos jogos. Vemos entradas que não são punidas e a CD nada faz. Nesta época só instauraram um sumaríssimo, ao Katsouranis, por um gesto obsceno, e em todos os jogos há lances violentos. Eu entendo que as imagens televisivas devem ser utilizadas e, mesmo quando os lances são sancionados, se a punição não tiver sido a adequada deve ser corrigida.

- Também tem sido muito crítico da Comissão de Arbitragem...
- Infelizmente, o dirigente Vítor Pereira não chega aos calcanhares do árbitro Vítor Pereira, com quem tive a honra de trabalhar. Os árbitros não estão a ser devidamente protegidos. Têm mais meios técnicos e regalias financeiras mas as suas actuações estão longe de ser iguais ao tempo em que eu era director executivo.

- Mas não acha que os árbitros devem ser punidos quando erram?...
- Essas punições são só para inglês ver, é uma jogada de fachada. Não se pode penalizar sem verificar se o árbitro tinha hipótese de ver o lance, e isso os observadores não podem avaliar. E será que o árbitro melhora se ficar em casa dois ou três jogos? Quando me candidatei à Liga em 2002 apresentei uma proposta para a avaliação do árbitro ser feita em 50/60 % pelos obervadores no campo e o resto por meios audiovisuais. Seis anos depois, nada.

- A Taça da Liga veio para ficar?
- É uma prova interessante, cuja previsão existia desde 1995. No essencial, a prova está bem pensada mas só terá total adesão dos clubes quando o vencedor for apurado para uma prova europeia. Isso passa por uma negociação entre a Liga e a FPF.

- Acredita que até final da época a CD da Liga decidirá sobre o Apito Dourado, como foi prometido?
- Mais uma vez falou-se de mais. Para haver uma condenação tem que se dar factos como provados, e a questão que se coloca é de que forma a CD poderá utilizar presunções para condenar antes de as decisões penais serem conhecidas.

- E a justiça desportiva pode utilizar as escutas?
- Tenho sérias dúvidas. As escutas telefónicas só são permitidas em determinados crimes e quando sancionadas pelo juiz – e há grande discussão sobre a eficácia e validade desse meio de prova.

- O seu nome aparece no processo ‘Apito Dourado’?
- Em todas as escutas do ‘Apito Dourado’ que já foram publicadas nos jornais o meu nome nunca consta. É a prova da forma correcta como se trabalhou quando eu estive na Liga.

- Planeia voltar a candidatar-se à Liga de Clubes?
- Neste momento, não.

- Acha que Scolari vai sair após o Euro’2008?
- Não sei. Mas já devia ter saído há muito tempo – e só não saiu porque não teve alternativas financeiramente compensatórias. Foi ele que escolheu ser anti-FC Porto e anti-Pinto da Costa.

- Teve uma polémica com Lourenço Pinto, presidente da Associação de Futebol do Porto...
- Ele questionou os meus méritos para integrar o Conselho Nacional do Desporto mas posso dizer que já fiz mais pela legislação desportiva do que ele alguma vez fará. Tenho os meus méritos.

- Porque veio defender o Belenenses no caso Meyong?
- Não tenho nada que ver com o Belenenses, basta recordar as minhas posições no caso Mateus. Só acho é que o Belenenses, neste caso, não pode ser punido porque os regulamentos de transferência da FIFA não foram transpostos para a ordem jurídica portuguesa através de uma AG da Liga. E no regulamento disciplinar da Liga não está previsto este ilícito.