15 de novembro de 2007

Os trabalhos de Jesualdo Ferreira

1 - Com toda a sinceridade, digo que tenho a melhor impressão sobre o trabalho de Jesualdo Ferreira à frente do FC Porto. Sei que há muitos, portistas e não portistas, que não partilham desta opinião e que vêem no treinador do FC Porto alguém incapaz do «golpe de asa» que é susceptível de levar equipas medianas a mais altos voos. Talvez o seja, talvez não. Mas a verdade é que, com as condições que tem tido à disposição, acho difícil alguém ter feito melhor do que ele, tanto na época passada, como este ano. Este ano, Jesualdo Ferreira perdeu, sem sorte, a final da Supertaça para o Sporting; perdeu, sem glória e por culpa exclusiva dos jogadores, a Taça da Liga; mas marcha à frente do campeonato, com uma diferença confortável para o Sporting e uma diferença para o Benfica que não reflecte o abismo de categoria existente entre ambas as equipes; e tem o FC Porto praticamente qualificado para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões, com boas hipóteses de terminar o grupo em primeiro lugar. Acho que era difícil fazer melhor com um plantel completamente desequilibrado, como já o era no ano passado e este ano ainda mais, com as saídas de Pepe e Anderson e a contratação de uma legião de jogadores de segunda categoria.Tudo bem esmiuçado, o FC Porto tem apenas seis jogadores de indiscutível valor, num plantel de 27 elementos. São eles os laterais Bosingwa e Fucile, o central Bruno Alves (incrível recuperação de Jesualdo Ferreira), o trinco Paulo Assunção e os avançados Lisandro e Ricardo Quaresma. Depois, há Lucho Gonzalez, um jogador de indiscutível categoria, mas que só produz um jogo em cada quatro e com destaque para os jogos europeus, onde é elemento preponderante. E tem mais uns fogachos do também incrivelmente recuperado Tarik Sektioui e as suspeitas de génio ocasionalmente deixadas em campo por Leandro Lima — em quem Jesualdo, todavia, parece fazer pouca fé.

O resto, tudo o resto, são jogadores banais ou menos do que isso.Jesualdo tem vários problemas urgentes a resolver e, na minha modesta opinião de treinador de bancada, as soluções passam por:

- obter da SAD a contratação, já no mercado de Inverno, de três jogadores, que sejam verdadeiros reforços e não mais umas quantas oportunidades de negócios escusos: um central de categoria para jogar ao lado de Bruno Alves e livrar-nos desse susto do Stepanov, responsável directo por quatro golos sofridos nos últimos quatro jogos — contra o Marselha, duas vezes, contra o Belenenses e contra o Estrela da Amadora. Talvez um dia o Stepanov venha a ser um jogador aceitável, mas para já é apenas um central à deriva em todos os lances importantes, sistematicamente batido no jogo aéreo, sem noção do tempo de entrada às jogadas e com uma tendência suicida para atrasos ao guarda-redes demasiado curtos;

- um médio de ataque (ou dois, no caso de continuar a não apostar no Leandrinho);

- e um ponta-de-lança de raiz e de cultura, que, não desfazendo no Lisandro, não é o caso dele;

- forçar o Helton a horas extraordinárias (se possível sobre orientação do Vítor Baía), até ele perceber que um guarda-redes com 1,90 de altura não pode ser um cata-vento no jogo aéreo, ficando preso aos postes quando devia sair e saindo, e em falso, quando não deve. Viu-se uma vez mais, contra o Estrela da Amadora, que ele não faz a mais pequena noção do que seja dominar o espaço aéreo da sua área. E um guarda-redes que não domina o jogo aéreo e que se enerva a jogar com os pés, pode fazer defesas extraordinárias, mas nunca será um grande guarda-redes.

- forçar também o Raul Meireles a horas extraordinárias, de modo a conseguir acertar na baliza mais do que uma vez em cada dez remates, e já que gosta de gozar da fama, a meu ver absolutamente injustificada, de «rematador de meia distância»;

- estar muito atento aos jogadores que o FC Porto tem emprestados pelos quatro cantos, a quem paga ordenados para os ver brilhar pelos adversários e de que, seguramente, alguns deles valem bem mais do que as pretensas vedetas contratadas no último «defeso».

Jesualdo pode dizer, e não deixa de ter razão, que a forma incrível como o FC Porto deixou fugir uma vitória tranquila sobre o Estrela, nos cinco minutos finais, se deveu ao facto de a equipa ter adormecido sobre a vantagem de dois golos, a meio da segunda parte. Mas a verdade, verdadinha, é que a impossível recuperação do Estrela não encontra justificação no agigantar do adversário nem no adormecimento dos portistas, mas apenas se tornou possível por dois erros crassos individuais da autoria de «suspeitos habituais». E, contra isso, de nada vale o génio do Quaresma ou o esforço do Lisandro e a jogada sumptuosa que ambos contruíram e que se concluiu com um remate ao poste que podia e merecia ter dado o 3-0 e pôr a equipa definitivamente ao abrigo das traições da retaguarda.

2 - Muito se escreveu sobre o lance do Binya contra o Celtic e que lhe mereceu o vermelho directo. A entrada do camaronês foi uma autêntica bestialidade e, a meu ver, não colhem as desculpas de que se trata de um jogador ainda imaturo — aliás, já tem 24 anos de idade e alguns seis ou sete de profissional. Acontece que quem vê jogar o Binya na Liga portuguesa, sabe que esse lance de Glasgow não aconteceu por acaso, mas antes reflecte a sua forma de interpretar o futebol. Aqui, ele vem usando e abusando do mesmo estilo, só que com a impunidade que faz com que os jogadores da nossa Liga imaginem que, lá fora, os árbitros são igualmente condescendentes. Não são: nem sequer os árbitros portugueses, que por cá consentem o que na Europa não se atrevem a consentir.

Anteontem na Luz, o Benfica viu sair lesionado o Cardozo, depois de uma entrada violenta de Ricardo Silva — outro jogador useiro e vezeiro nesse tipo de jogo. E, na Amadora, o árbitro deixou em campo, sem sequer lhe mostrar um amarelo, o Anselmo, depois de ele ter entrado a pontapé ao corpo do Helton, quando já não tinha hipótese alguma de disputar a bola. Parece que o exemplo do katsouranis, no ano passado, arrumando o Anderson por quatro meses, perante a complacência de Lucílio Baptista, não serviu de motivo de reflexão para ninguém.É claro que esta cultura da cacetada impune tem solução: basta querê-la. Basta que a Comissão Disciplinar passe a punir seriamente os caceteiros, que a Comissão de Arbitragem passe a punir os árbitros condescendentes e que os treinadores passem a ensinar aos seus comandados que futebol é uma coisa, cacetada é outra. Foi isso que se esqueceram de explicar ao Binya.

3 - O golo de Tarik Sektioui contra o Marselha, a bem da promoção do futebol, deveria passar a integrar todos os genéricos dos programas sobre futebol, a ser passado nas escolas todas do país e em todos os centros de formação onde há miúdos que sonham vir um dia a ser grandes jogadores deste maravilhoso jogo.

# jornal “A BOLA” de 2007.11.13

3 comentários:

Paulo Pereira disse...

Com amigos destes, quem precisa de detractores?

Lucho, apesar de não ser banal, não é, na opinião do MST, um jogador de topo. Surreal...

Helton, com dois erros nos dois últimos anos, deixou de ser um guarda-redes de classe, merecendo reparos do cronista...

Quanto ao resto, pura palha, para preencher os caracteres que está obrigado por contrato na Bola. Nada de novo, as críticas do costume e as contradições habituais...

Joao Rocha disse...

Se nao gostas, pk lhe continuas a dar voz no teu blog? e as contradições continuam..

Paulo Pereira disse...

Dasse...hoje deve ter sido o dia da família Rocha embirrar comigo...

Caro João, leste em algum lado k eu não gosto do MST? Não confundas críticas, ainda por cima fundamentadas, com o facto de não gostar. Em nenhum momento disse k não gostava...

Gosto da capacidade de escrita, do estilo verrinoso e independente, mas tenho dito k ultimamente ele não tem sido tão caustico como antigamente, entrando em algumas contradições e críticas saloias...

Entendidos?