6 de julho de 2007

Especulação

A CMVM anda a assobiar para o alto. Desde sempre, dirão alguns, mais ressentidos com a hecatombe verificada por alguns títulos transaccionados em bolsa, nos últimos anos. Talvez sim, responderei eu. Mas, se o papel de supervisão pode andar negligenciado, o mesmo já não se pode dizer da azáfama verificada nas semanas anteriores, com comunicados constantes, onde prevalecem sempre os mesmos termos. “Apurar factos” e “investigação massiva”, etc e tal, até conseguem fazer crer os mais ingénuos que a Comissão de Mercado dos Valores Mobiliários anda atenta ao que se passa. Gostei particularmente do último, após a especulação bolsista ter atingido níveis surrealistas com as acções do Benfica. Dizem eles, e passo a transcrever o que veio na imprensa:

“A CMVM vai fazer um levantamento dos acontecimentos, apurar os factos e responsabilidades, e verificar se há uma violação do Código dos Valores Mobiliários, a propósito dos acontecimentos relacionados com a informação sobre o interesse de um grupo chinês no Benfica”. Pois, pois…

Já toda a gente sabe, pelo menos os mais interessados em investimentos na Bolsa de Valores, como é que se especula, procurando fazer disparar os valores de determinado papel. A prática, logicamente, não está ao alcance de todos. Uma pequena minoria, com pessoas chave colocadas em determinados postos, aproveita para ir enriquecendo. Joe Berardo da fama não se livra. Por isso, entendo que estes comunicados só servem para enganar tolinhos. Se quisessem agir, já o teriam feito à muito tempo.

Estando os clubes portugueses actualmente blindados a entradas na totalidade do seu capital, o seu estatuto não é, por isso, apetecível. Para além da visibilidade da Premier League dar uma goleada na Superliga nacional, nenhum investidor de bom senso mete um cêntimo sequer num clube que não possa controlar. Assim, será que conseguem explicar convenientemente a OPA realizada pelo madeirense? Estratégia conjunta com a SAD encarnada para ressuscitar um nado-morto? O que quer que se tenha passado, existe uma imagem que contraria tudo o que se possa ensinar sobre bolsa. Estando o preço estipulado em 3,5 €/acção, como é que existiram milhares de movimentos a preços bem superiores? As pessoas eram burrinhas, pois compravam toneladas de acções a 4€, sabendo que o Big Joe pagava por elas apenas o pré-determinado?

Andava-se nisto e cai a bomba. Lá dizem que foram os chinocas a descobrir a pólvora. Neste caso, pelo menos a menção da existência de uns pretensos investidores, dispostos a pagarem o dobro, resultou. O José Manuel Delgado já tem assunto para falar nos próximos meses, sempre naquele tom laudatório que o caracteriza quando fala dos vermelhos. Vão-se tecer loas à boa gestão do Orelhas, hossanas ao valor a marca Benfica, e, mais uma vez, alguém aproveita para ganhar umas valentes massas com tudo isto. A(s) OPA(s) é que ninguém investiga. É que elas, na realidade, nem sequer existem. Serviram apenas os interesses de alguns (muitos), para o fim a que se destinam. E isto, meus caros, também é o SISTEMA!

9 comentários:

Estilhaço disse...

Ó Paulo explica lá essa de os actualmente blindados a entradas na totalidade do seu capital.

A ideia que eu tinha é que eram 40% da sad + 11% do clube e que estes 51% não podiam ser tocados.
Mas agora esta de a CMVM aconselhar
o mib a comprar 85% fez-me confusão.
Estou errado desde o princípio ou há algo novo ?

tiago pimentel disse...

Boas Paulo, é como dizes, estas OPAS cheiram a pura especulação, destinada a fazer apenas subir as acções para níveis estratosféricos. Pena que a CMVM, noutros casos, seja tão lesta a aplicar multas(ainda há pouco tempo saiu a noticia de uma aplicada a uma corretora) e neste caso se limite a comunicados.

Paulo Pereira disse...

Olá Estilhaço,

Quando falo e clubes blindados, é para diferenciá-los dos clubes ingleses, onde estes podem ser comprados por investidores que passam, a partir desse momento, a ter total poder sobre a gestão. Cá isso não se passa. Como dizes, os 40+11 não permitem o controlo absoluto na gestão da SAD. O que sei é k inicialmente o madeirense fez uma OPA sobre 60% da sad benfiquista, mas foi obrigado pela CMVM a estender a oferta à totalidade do capital. Isto causa alguma estranheza, pois aparentemente contradiz o anterior. Aqui é que entra a diferenciação entre dois tipos de acções: as acções A e B. O Benfica é detentor das acções A, que têm um regime especial previsto em decreto lei(nº67/97) enquanto as acções B são ordinárias, não possuindo estatutos especiais. A totalidade da oferta que a CMVM obriga o Joe a fazer é sobre as acções tipo B. Assim, o madeirense só "seria dono do clube" se o próprio clube o permitisse, vendendo as acções A.

Um abraço

Estilhaço disse...

Viva Paulo, a Ber se entendi.

Os 40+11 são acções A.
O restante são B.

A CMVM obrigou o mib a fazer uma oferta sobre a totalidade da B.
Mas isto não são mais de 49%.

Está correcto ?

Paulo Pereira disse...

Olá novamente estilhaço,

Sim, mas tá subentendido k a OPA a todo o capital só resultaria se o clube resolvesse ceder a sua parte (pelo menos é este o meu entendimento, tamanha é a confusão)

Atão é assim:

1) A Lei

A lei das sociedades desportivas diz que os clubes têm que ter directamente entre um mínimo de 15% das acções nas SADs e um máximo 40%. Essas acções são consideradas de categoria A.

As que estão em Bolsa, são as de Categoria B e estão em Bolsa. Muitas delas podem ser detidas pelo clube, mas indirectamente, atravês de uma SGPS.

As acções de Categoria A tem direitos que as de B não têm, pelo que nunca a totalidade das acções B podem tomar uma decisão sem as de Categoria A.

Os clubes são sempre quem toma a decisão.

As acções de Classe A podem ser vendidas, mas são automaticamente consideradas classe B. E o Clube tem que manter sempre os 15% mínimos!

2) Realidade.

No Benfica o Clube tem 40% das acções directamente (Categoria A) e a SGPS 10,01% (categoria B).

No Sporting o Clube tem 16,33% (Cat. A) e a SGPS tinha 61,9% (Cat. B).

No Porto, o clube tem 40% de Categoria A e 1,07% através de dirigentes.

c) E no caso de uma OPA.

As OPAs são coisas normais nas Bolsas. Quem lá está, está sujeito! Não há volta a dar-lhe.

Mas nos casos das SADs só se pode comprar 85%, porque é o que a lei permite. E quem comprar não fica com o controlo da SAD. Porque mesmo com 85% de categoria B, tem muito menos poder que 15% de categoria A.

E mesmo que não haja uma OPA, o clube pode entender que não tem necessidade de manter a maioria do capital na SAD e vende as acções no mercado. CASH para o clube ou SGPS.

Esperando ter sido esclarecedor,

bruno sousa disse...

Para mim foste, finalmente consegui perceber o funcionamento disto. Quer dizer, é só fantochada, pois o Joe ou quem quer que seja nunca ficará a mandar no clube. Pura especulação o que se passou ontem, pois dos chineses nem rasto.

Estilhaço disse...

Ok, obrigado Paulo.
Assim sendo vem na linha do meu entendimento.
Não estou a ver ninguém muito muito interessado 'á sério' em ser dono de 85 % de uma pequena parte do capital de um clube.

Falou-se tb. há uns tempos do interesse da (parece-me) RedBull no Boavista mas, aparentemente, não passou de fogo de vista.

Paulo Pereira disse...

Boas Estilhaço,
Parece-me k o interesse da Red Bull era sério, mas deve ter arrefecido com estas particularidades das SAD's portuguesas. É k esses, onde entram, mandam mesmo, mudando mesmo o nome das equipas. É assim nos States, com a equipa de Nova Iorque a ficar com a denominação Red Bull junta, e na Áustria, onde treina o Trapattoni.

Um abraço,

AZUL DRAGÃO disse...

O SISTEMA ...
no seu melhor !
(acrescento , eu)