18 de junho de 2007

Entrevista de Pinto da Costa - parte 2

Continuação da entrevista dada pelo nosso grande presidente ao jornal Público. Depois de abordados os temas mais sensíveis, como o Apito Dourado e a permuta de terrenos com a Câmara Municipal do Porto, seguem-se novos temas da actualidade portista. Jesualdo Ferreira, a época que findou, a venda de Anderson, a situação das restantes "pérolas" do plantel. etc, etc, etc.


Público, edição de 18.06.07


"PÚBLICO: Chegou a temer perder o título nacional depois de o FC Porto desperdiçar a vantagem da primeira volta?
Pinto da Costa: Temer não será o termo porque confiava na equipa. Agora, tivemos que cerrar fileiras para não sermos surpreendidos porque houve momentos em que vimos a coisa a complicar-se. O sinal de alarme e de tocar a reunir foi em Leiria. Pela forma como perdemos, pela expulsão de Quaresma e pela forma como o jogo foi dirigido.
P: Mas não houve erros próprios?
PC: Naturalmente, mas o campeão é o que comete menos erros, não é o que não faz erros. Como o melhor árbitro não é o que não erra; é o que erra menos. E o mesmo vale para o melhor treinador ou para o melhor presidente
.
P: Como aprecia o trabalho de Jesualdo Ferreira?
PC: Foi extremamente positivo. Entrou no FC Porto num momento em que nenhum treinador gostaria de entrar, com a pré-época realizada e a poucos dias do início do campeonato e sem ter o conhecimento ideal dos jogadores e vice-versa. Não tinha participado na definição do plantel: as dispensas e as aquisições tinham sido da responsabilidade de outro treinador. Eram condições extremamente difíceis. Um treinador que, mesmo assim, sagra a equipa campeã e a leva aos oitavos de final da Liga dos Campeões, sendo eliminada pelo Chelsea da maneira que foi e discutindo a passagem até ao final do segundo jogo, tenho de considerar que foi uma prestação extremamente positiva.
P: Então não é verdade que o lugar dele chegou a estar em causa?
PC: Nunca. Nem isso fazia sentido na medida em que, em plena época, renovamos o contrato com ele, exercendo o direito de opção. Não estivemos à espera do final da época para ver se ele ganhava ou não. Nunca esteve em perigo. E desde há muito tempo que vínhamos em conjunto preparando esta nova época.
P: Como se compreende então o facto de ele ser um treinador com pouca empatia com os adeptos...
PC: Não faço ideia. Ele é extremamente profissional, dedica 24 horas ao FC Porto. Poderá não ter aquela empatia devido à sua falta de exuberância e por saber ou não querer aproveitar os momentos de euforia para se mostrar. Todos nós sabemos que há maneiras de aproveitar esses momentos de vitória. Mas é contra o feitio dele. Isso não invalida o seu profissionalismo. Jesualdo tem um objectivo, que é servir o FC Porto. Mas também sei que tem uma grande simpatia pela nossa massa associativa. E se não há grande empatia também não há qualquer animosidade como acontecia com Adriaanse.
P: Não está arrependido por aceitado a saída do brasileiro Diego, com quem Adriaanse não contava?
PC: Claro que estou. E muitas vezes o professor Jesualdo lamentou a sua saída. Mas é preciso perceber as coisas. O Diego tinha custado cerca de sete milhões de euros e, quando o treinador diz ‘não conto com ele’ (e nem era preciso dizer porque bastava ver que ele não o utilizava), a opção era entre ficar com ele encostado e cada vez a desvalorizar-se mais ou tentar recuperar a maior parte do elevado investimento. Mas, tal como aconteceu com o Hugo Almeida, no dia em que o Adriaanse se demitiu imediatamente tentei que o Werder Bremen desistisse dos dois. Mas o clube alemão não aceitou voltar a atrás no negócio e perdemo-los.
P: Muita gente defendeu que Jesualdo não teve o respaldo que o presidente do FC Porto normalmente dá aos seus treinadores. Você praticamente não falou na última época...
PC: Primeiro, o professor Jesualdo teve sempre todo o meu apoio, como acontece com qualquer treinador. Ele sentiu isso e já o reconheceu publicamente. Às vezes temos necessidade de defender publicamente alguém que esteja momentaneamente fragilizado, mas o Jesualdo nunca esteve nessa situação. Conversamos várias vezes sobre isso. Normalmente, quando se dá votos de confiança ao treinador alguma coisa está mal. Como ele estava a trabalhar dentro do previsto, como os objectivos estavam a ser completamente seguidos, como estávamos em sintonia total, não havia razão para o fazer. Não tinha de vir dizer, por exemplo, que o treinador é muito bom. Ele sabia o que eu pensava.
P: Miguel Sousa Tavares escreveu que a venda de Anderson foi um mau negócio para o FC Porto. Porque, disse, depois de se subtrair o investimento numa “pérola fina” e as comissões, o FC Porto só lucra 5,5 milhões de euros...
PC: Afirmou uma coisa que não é correcta: que o empresário recebeu, no mínimo, cinco por cento por intermediar o negócio. Não é verdade. O empresário não recebeu nada porque o negócio foi feito directamente entre o FC Porto e o Manchester United.
P: Mas o empresário Jorge Mendes esteve também envolvido...
PC: Não é verdade. O Sporting recebeu o Manchester de manhã para tratar do Nani, saíram fotografias nos jornais e imagens nas televisões. O FC Porto fechou o negócio estando presente o presidente executivo, Carlos Queiroz, eu e os doutores Fernando Gomes e Adelino Caldeira. O empresário nem sabia onde estávamos. Depois de concretizado o negócio, o Manchester informou disso o senhor Jorge Mendes e pediu para falar com ele para discutirem o contrato do Anderson. Portanto, não tivemos de pagar comissão nenhuma. Logo aí as conclusões já estão viciadas.
P: Custou-lhe vender o Anderson?
PC: Naturalmente. Custa-me sempre vender qualquer jogador, não só pelo seu valor mas até pelo relacionamente que tenho com eles. Mas o FC Porto, como qualquer clube português tem necessidade de realizar mais-valias com os jogadores. Mas há também a impossibilidade de manter um jogador que recebeu uma proposta em que pode ir ganhar, às vezes, dez vezes mais do que ganha no FC Porto.
P: Foi o caso?
PC: Não sei se foi dez, mas foi muitas vezes mais. A partir do momento que o jogador sabe que o Manchester o quer é muito mantê-lo no plantel.
P: Mas há outros jogadores no FC Porto perseguidos por outros grandes clubes. Isso significa que Pepe, Quaresma, Lucho, Bosingwa ou outros também podem sair?
PC: Não... perseguidos não há, acompanhados sei que há alguns. Quando um clube quer um jogador faz como nós fazemos ou como o Manchester fez. Contacta e pede para negociar. Ao FC Porto não chegou mais nenhuma proposta em relação aos seus jogadores de primeiríssimo plano. Ou antes, houve um contacto do Villarreal de Espanha, que nos comunicou estar interessado no Lucho. Nem sequer falei com eles. Por uma questão de cortesia foram recebidos, não por mim, porque também não era o presidente que aqui estava, mas nem sequer houve conversa. Muitas vezes os jornais dizem que este quer aquele e que o outro pretende aquele ou que o empresário diz que este está ali e o outro está acolá... é tudo conversa.
P: O mercado só fecha no final de Agosto...
PC: Claro, e não sei se quando sair daqui não estará aí algum pedido de audiência dum clube. Mas reafirmo que não sairá mais nenhum dos jogadores considerados fundamentais pelo treinador. Agora, há propostas para alguns dos outros.
P: E todos aqueles que eu referi estão no lote dos intransferíveis?
PC: Estão. Posso-lhe dizer, por exemplo, que tive um contacto com um empresário por causa do Bosingwa. Queria vir cá e eu disse-lhe: não venha que, este ano, esse jogador é inegociável. Mas isto não é uma proposta de um clube. Proposta é como o que fez o Bayern de Munique há dois anos. Veio cá, disse que queria o Deco, reunimos duas vezes, mas não foi possível chegar a acordo. Mas aí pode falar-se numa proposta. Agora porque sai no jornal... você sabe tão bem como eu como as coisas funcionam.
P: Ibson vai ser vendido e Bruno Moraes e Mareque serão dispensados?
PC: Nenhum deles está no lote dos inegociáveis. Se houver alguma proposta e os jogadores manifestarem vontade de a aceitar, poderemos negociar.
P: Além de Lino, Nuno, Fernando, Edgar e Kasmierckzak quem vai mais o FC Porto contratar? Os jornais falam em Rossi, Bolatti, Óscar Cardoso, Stepanov, Vukcevic, Leandro Lima, Andrés Madrid...
PC: Alguns conheço, mas outros nem sei quem são. O Edgar e o Kasmierczak são jogadores que foram referenciados pelo treinador como tendo interesse para o plantel. As coisas estão bem encaminhadas. Mas já vi notícias, até de primeira página nos três jornais desportivos, que um e outro estavam no Benfica. Afinal, era tudo invenção, era tudo mentira. Provavelmente, os três jornais pensaram que estávamos no 1 de Abril. Os três diziam o mesmo por isso o engano não era a notícia, mas a data... Assumo que naqueles dois estamos interessados. Mas não estou ainda habilitado a dizer-lhe se alguns dos restantes também interessam. Porque só estaremos eventualmente interessados dentro de determinados parâmetros e números.
P: O FC Porto quer reforçar-se para que posições?
PC: Poderá haver mais dois, três reforços. A defesa é intocável, excelente, e não virá mais ninguém. Poderá vir mais um ou dois jogadores para o meio campo e mais um atacante.
P: Quais são os objectivos desportivos para a próxima época?
PC: Vencer.
P: Mas o FC Porto participa em várias provas...
PC: Vencer todas as possíveis. Mas sabemos que há umas mais difíceis do que outras, temos a noção de que a Liga dos Campeões, na conjuntura actual do futebol português, é muito, muito difícil. Temos, por isso, nessa prova um objectivo prioritário: passar aos oitavos de final e depois ver o que acontece. Agora, na Liga, na Taça da Liga e na Taça de Portugal a prioridade é tentar vencer o máximo.
P: Concorda com a criação da Taça da Liga?
PC: Concordo. Acho que há paragens a mais e jogos a menos. Com a redução para 16 do número de clubes isso ainda ficou mais notório. A Taça da Liga pode ser importante mesmo para os três grandes, mas sê-lo-á ainda mais para os outros.
P: As férias de Natal do plantel este ano vão ser mais curtas?
PC: Vão, não só as do FC Porto, mas de todos. Porque o calendário prevê uma jornada ainda para o dia 23 de Dezembro e depois há outra logo a 6 de Janeiro. Como não vamos dar férias nem antes nem depois dos jogos...
P: Os estrangeiros poderão nem ir passar uns dias aos seus países...
PC: Se forem, será ir e vir...
Continua brevemente...

5 comentários:

Bruno Sousa disse...

Finalmente, uma opinião desassombrada sobre a polémica saida de Diego. Vê-se que foi mesmo uma decisão de Adriaanse, que deve ter custado imenso a engolir ao staff directivo do Porto. E assim se perdeu um grande jogador...

Paulo Pereira disse...

Olá Bruno. Tenho uma opinião totalmente diferente da tua, quando se aborda o tema Diego. Ponto 1 - Se a decisão não era do agrado da Direcção portista, esta tinha meios para impedir a sua venda. Não me venham com a velha treta que isso iria hostilizar o treinador, pk isso não colhe.
Ponto 2 - Convenhamos que o Diego é um grande jogador...mas fora do Porto. No Santos, no Werder Bremen, pois no Porto nunca fez nada de relevante. E, tb aqui, não admito que digam k a culpa é do holândes. Ele tb foi treinado pelo Fernandez e pelo Couceiro. Foi pouco relevante o seu contributo na conquista da Taça e da Intercontinental. Quer-me parecer que, neste caso, é mais a fama do que o proveito.

Um abraço,

Jorge Silva disse...

Por acaso, o que achei mais relevante nesta segunda parte foi o colocar os pontos nos iis, em relação à venda do Anderson e à suposta comissão paga a intermediários, isto fazendo fé no MST. Pois, segundo PC, o jogador foi negociado directamente com o MU, o que vem de encontro a comentários proferidos na altura por Carlos Queiroz, que acompanhou as reuniões de negociação. Mais uma vez, o MST falou de cor, sem saber bem o que estava a dizer, e os jornais idem aspas.

Paulo Grave disse...

Pelo paleio, quer-me parecer que vamos é ficar sem mais um ou dois jogadores de topo. Tou mesmo a ver...

Bruno Pinto disse...

Ora vamos lá ver:
Diego: é um grande jogador e é óbvio que neste momento encaixaria muito bem na equipa. Mas o que é certo é que no FC Porto não fez nada de relevante, não deu rendimento, andava sempre no chão, falhava passes atrás de passes, golos contam-se pelos dedos. E mesmo que a Direcção estivesse contra, não fazia muito sentido manter-se um jogador com quem o treinador não contava, ainda por cima um jogador dispendioso. Ou seja, sou obrigado a dizer que ele saiu porque o Adriaanse não contava com ele e como ninguém contava com o despedimento do holandês, foi a saída possível para a situação.
Depois, Pinto da Costa diz que não sairá mais ninguém importante, mas também diz que quando aparece um grande clube a oferecer muito mais a um jogador é impossível mantê-lo... Ou seja, se o Milan ou o Real aparecerem a tentar levar o Quaresma ou o Pepe e lhes oferecerem o céu e o mundo, não há como negar... Então em que é que ficamos, sr. Presidente? Reafirmo: a saída de Anderson foi um erro e podia ter sido evitada pelo menos mais um ano, caso houvesse vontade efectiva para isso. Quis-se foi fazer dinheiro à força toda, para contrabalançar as asneiras que vêm sendo cometidas com compras irresponsáveis e inúteis.