18 de junho de 2007

Entrevista de Pinto da Costa - parte 1

O Público traz hoje uma extensa e interessante entrevista com Pinto da Costa. Quatro páginas em que o nosso GRANDE PRESIDENTE fala de tudo um pouco. De Vítor Baía e o seu recente cargo, passando por Jesualdo Ferreira e o balanço da época desportiva, até culminar no processo Apito Dourado. Sim, ele fala do Apito Dourado. Sem problemas, sem tabus, fazedo jus ao refrão popular, "quem não deve, não teme"!
Devido ao tamanho da entrevista, e pelo facto de o Público apenas publicar hoje uma parte, também aqui a mesma será dividida, permitindo uma maior facilidade de consulta a quem por aqui passa...
Público, edição de 18.06.07
"Público - O Vítor Baía não podia jogar mais uma época?
Pinto da Costa - Sem ser no FC Porto, o Baía ainda seria titular em qualquer equipa portuguesa. Mas no FC Porto já não era titular. Ele teve a possibilidade de ir jogar noutro clube, mas liminarmente recusou-a, porque queria terminar no FC Porto. Fez a opção correcta, porque custou-me - embora o compreenda - ver outros jogadores, que marcaram uma época aqui, irem acabar a carreira noutro lado. Custou-me imenso que o Fernando Gomes, que ganhou duas botas de ouro e foi a marca da equipa durante muitos anos, ir acabar no Sporting. Teve todo o direito, porque ele, que fique claro, não trocou o FC Porto pelo Sporting - trocou foi a hipótese de terminar a carreira no FC Porto para ainda continuar a jogar no Sporting. Também deve ter custado muito aos benfiquistas que o símbolo Eusébio saísse para ir terminar no Beira-Mar e no Tomar.
Este lugar de director das relações externas vai servir para preparar Baía para voos mais altos ou vai ser uma prateleira dourada?
Tenho por ele uma estima imensa e sei que ele sente o mesmo por mim. Mandei encaixilhar a primeira camisola que ele vestiu como sénior. E tenho também uma das duas camisolas que vestiu em Gelsenkirchen. Teve a delicadeza de mas oferecer. Era também com ele que eu festejava de forma mais efusiva as vitórias. Tenho por ele um carinho especial, mas isso não interferiu na decisão de ele assumir este cargo. Mas este é um lugar fundamental e que falta no FC Porto. Porque agora vai um a uma reunião da UEFA, amanhã vai outro à do G-14, eu, que até gostava de ir, raramente posso... Alguém duvida de que será prestigiante para o FC Porto e para o Baía quando ele chegar a uma reunião na UEFA, na FIFA, do G-14, a um sorteio da UEFA ou a um clube europeu para tratar de um assunto? Mas, se me perguntar se o Baía pode ser muito mais no FC Porto, eu digo-lhe que sim. Espero que tenha como dirigente a mesma carreira brilhante que teve como jogador.
Pode vir a ser um bom presidente?
Se me tivesse perguntado se eu gostava, eu não respondia, porque podia ser interpretado como um sinal da minha preferência. Mas perguntou se pode. E a isso já posso responder: acho que sim.
Como reagiu ao despacho de acusação do Ministério Público dos crimes de corrupção desportiva activa, no âmbito do processo que envolve o FC Porto-Estrela da Amadora de 2004?
Confesso que não perdi muito tempo a analisá-lo, atendendo a que já tinha sido anteriormente arquivado por não haver indícios.
Alguma vez comprou ou mandou comprar um árbitro para beneficiar o FC Porto?
Não. Isso não tem qualquer tipo de cabimento e só lhe respondo porque não faço reservas às perguntas.
Declarações de Carolina Salgado terão servido para descodificar o nexo de causalidade em que Jacinto Paixão pedia ao empresário António Araújo que lhe arranjasse, por exemplo, "fruta" e as prostitutas que se diz terem sido um serviço oferecido pelo FC Porto à equipa de arbitragem...
Fruta? Fruta como eu todos os dias ao pequeno almoço, que faz muito bem à saúde.
Refiro-me à conversa telefónica gravada entre si e António Araújo...
O FC Porto e António Araújo, este como representante do Corinthians Alagoano, mantinham entre si uma conta corrente relativa à transferência de jogadores, e quando [ele] me falou em fruta, pensei que se referia a uma verba que vinha reclamando de uma dívida do FC Porto, tendo-lhe por isso dito que tinha sido já enviada, como, de facto, fora.
Mas Carolina Salgado refere até, no livro Eu Carolina, a existência de ofertas a árbitros...
Como é sabido, as minhas preferências literárias vão mais para o poeta José Régio. Não aprecio literatura de cordel.
Mas conhece de certeza o seu teor...
Quanto a isso, quero endereçar os meus parabéns ao senhor procurador e à senhora juíza, musas inspiradoras de tal obra, uma vez que foram eles que criaram o guião. Conheço o suficiente para compreender que tanta invenção e falsidade só serão compreendidas quando todos souberem (o que eu já sei) com quem a Carolina Salgado se reuniu antes do livro, depois de ele ser escrito, quem cortou coisas, quem acrescentou outras, quem a apresentou à D. Quixote, etc., etc. Para se compreender o objectivo desse livro, será suficiente ler, como eu li, há dias, num diário, que a escritora Fernanda Freitas está arrependida (e vou citar) por "ter pactuado, alegadamente por desconhecimento de causa, com falsidades e invenções no texto que escreveu".
O que pretende dizer com isso?
Diria que a autora do livro poderia ser processada por plágio, já que, ao que me contam, transcreve o interrogatório judicial de que fui alvo.
Mas a verdade é que o FC Porto foi acusado de oferecer prostitutas aos árbitros...
Quanto a essas aleivosias, já prestei os esclarecimentos em sede de inquérito, que, pelos vistos, foram suficientes, porque o processo foi arquivado. Aliás, como é bom de ver pela última época, em que fomos prejudicados por este ambiente de suspeição, o FC Porto continua a ganhar e venceu o campeonato. Não esqueçamos que, em caso de dúvida, os árbitros, neste clima de suspeição, decidiam sempre contra o FC Porto.
O FC Porto jogou com o Estrela da Amadora a 24 de Janeiro de 2004, numa altura em que tinha uma equipa fortíssima...
É verdade. O FC Porto ia em primeiro lugar, com 48 pontos e cinco de avanço sobre o segundo classificado. É também verdade que o Estrela ia em último lugar, com 11 pontos, aliás lugar no qual terminou o campeonato e destacado. A mesma equipa e a mesma estrutura que ganharam as mais prestigiadas taças europeias não seriam capazes de ganhar ao Estrela em casa? Não me lembro de ninguém, na altura, se ter lembrado de falar em favores de árbitros europeus. Curiosamente, nem é referente ao FC Porto que mais do que um árbitro internacional disseram, e está escrito, que receberam favores de um clube português em jogos europeus.
Mas a acusação, com base em pareceres técnicos de ex-árbitros portugueses, diz que diversos erros prejudicaram o Estrela...
Eu, desse jogo, e de erros, lembro-me de três foras-de-jogo mal assinalados ao FC Porto, que podem ser facilmente comprovados pelo visionamento da gravação. Quanto aos golos do FC Porto, nem eu nem os analistas nem os "paineleiros" habituais descortinaram qualquer irregularidade.
Mas não está preocupado com esta segunda fase do Apito Dourado, agora liderado por Maria José Morgado?
Ao que sei, só existe um processo Apito Dourado, o que corre em Gondomar e do qual não faço parte. Além do mais, quem não deve não teme e considero que se trata de uma perseguição pessoal, a mim e ao FC Porto, à qual saberemos dar resposta.
Resposta a quem? A Maria José Morgado?
Não, não. Refiro-me mais a alguns apêndices sequiosos de protagonismo, aqueles que vão para as televisões fazer afirmações descabidas sobre o meu salário e que falam das ligações dos autarcas ao Ministério Público.
Está a referir-se a quem?
Há uma analogia entre o lugar-comum da promiscuidade entre a política e o futebol e aquela que existe entre alguns elementos dos media e elementos do Ministério Público. Algo semelhante entre o que se passava na corte francesa, em que os segredos de Estado eram partilhados na alcofa.
Mas a reabertura do processo teve por base as declarações de Carolina Salgado...
Apesar de não conhecer o teor dessas declarações, uma vez que não tive acesso às mesmas, sei que foram o pretexto para a reabertura.
Como vai, então, reagir à acusação?
Já entreguei o assunto aos meus advogados, que são pessoas competentes para tratar disso. Eu estou de consciência tranquila e espero, serenamente, o desfecho do processo. Contudo, não quero deixar de manifestar a minha estranheza por todo este alarido acerca da corrupção no futebol só levantar suspeições sobre clubes e agentes desportivos do Norte do país, quando é do conhecimento público, e em especial de quem acusa, que, nas mesmas escutas, há outros dirigentes desportivos de clubes da capital a solicitar a nomeação de certos árbitros. E, contra esses, ao que sei, não há processos a correr.
Acha que há perseguição ao FC Porto?
Há uma perseguição ao FC Porto e ao Norte em geral. O que podemos constatar é que há uma dualidade de critérios.
Um comunicado do seu advogado anunciou medidas: é verdade que vai pedir a nulidade das escutas telefónicas?
Não faço ideia. Os meus advogados é que sabem os passos a seguir. Também não lhes peço opinião sobre os assuntos do futebol...
Tem ainda mais dois processos: o do Beira-Mar-FC Porto, arbitrado pelo Augusto Duarte, e o do Nacional-Benfica, e há ainda um processo lateral ao Apito Dourado em que é acusado de ser o mandante de uma agressão ao ex-vereador da Câmara de Gondomar Ricardo Bexiga. Teme voltar a ser acusado?
Não faço a mínima ideia dos inquéritos, designadamente dos ressuscitados, e do seu andamento. Para isso é que tenho advogados. E respeito o segredo de justiça.
Já teve vários inquéritos arquivados resultantes de certidões do processo principal. Quantos?
Que me lembre, todos tinham sido arquivados, menos um. Até ao renascimento dos novos processos, que ainda não estão concluídos.
Que implicações pode ter o Apito Dourado para o FC Porto no aspecto desportivo e no "negócio" da SAD?
Espero que nenhuns, porque acredito na justiça. Embora, se formos analisar as arbitragens dos jogos do FC Porto e dos seus rivais directos, já estejamos a sentir os seus efeitos directos.
O que acha do facto de o realizador João Botelho ir fazer um filme baseado no livro Eu Carolina?
Acho normal. É a sequência lógica e faz parte do plano que levou à publicação do livro. Tudo começou quando saí da casa em que vivia [com Carolina Salgado] e quando, depois, recusei ceder às tentativas de chantagem. No dia 14 de Maio de 2006, saiu uma entrevista no Correio da Manhã de um indivíduo em que ele exibia objectos meus que ainda hoje não reavi e em que falava num plano para me extorquirem 500 mil euros. Estou à vontade porque nem conheço o cavalheiro. Depois, o resto também é conhecido: uma mulher interveio e é uma das protagonistas do filme, o marido filmou e alguém patrocina...
O ex-presidente da Câmara do Porto Nuno Cardoso e os dirigentes do FC Porto Angelino Ferreira, Eduardo Valente e Adelino Caldeira são acusados de terem prejudicado o Estado em 3,3 milhões de euros no negócio da permuta, em 1999, de terrenos das Antas e do Parque da Cidade...
Isso é muito fácil de explicar. O então presidente da câmara, Fernando Gomes, andava há muito tempo a tentar uma permuta de terrenos desta zona com a família Ramalho, por troca com a quinta que existia aqui nesta zona. Não conseguia chegar a acordo porque a família Ramalho não queria trocas, tinha acertado um valor e só queria dinheiro. E como a Câmara do Porto tinha aceitado trocar esses terrenos pela quinta, cujo valor atribuído era idêntico, o FC Porto foi ao banco, ao BCP, conseguiu o empréstimo e pagou à família Ramalho aquilo que ela pretendia pela quinta. Depois, permutou-a pelos terrenos que a câmara queria trocar com a família Ramalho, num documento que foi assinado pelos três directores responsáveis pelos respectivos sectores. E vendeu-os entretanto para pagar ao banco. É tão simples como isto. Quer dizer, se a família Ramalho tivesse feito ela a permuta, a esta hora quem estava no banco dos réus era a família Ramalho. É um absurdo."

5 comentários:

Bruno Sousa disse...

O homem continua em grande forma, como se constacta. Contundente nas respostas, não fugiu a nenhuma pergunta. E assim, neste jogo de pergunto eu e respondes tu, ainda se nota mais a falta de senso das acusações. Livros feitos por encomenda, escutas de uns que não dão em nada (pudera, não falam em fruta, é tudoà descarada), etc, etc.
Gostei de ler.

Anónimo disse...

Pois, pois...blá, blá, blá, mas lá que as escutas existem e ele quer pedir a sua anulação, lá isso é verdade Ou não? Têm a mania da perseguição e da cabala. Se existe alguem que pode usar esse argumento, somos nós, Sporting! Ninguem foi apanhado em escutas nenhumas, ao contrário de PC e de LFVieira. E isso quer dizer muita coisa.

Paulo Pereira disse...

Ó minha alimária de carga, vulgarmente designadas por bestas. Em 1º, não costumo responder a comentários anónimos, mas, neste caso, não quis deixar passar a oportunidade. Se existe alguém que, sistematicamente, usa e abusa de teorias de conspiração, manias de perseguição e outras taras psicóticas, são os sportinguistas. Os inêxitos no teu clube, meu cromo mental, são sempre fruto de alguma maquinação do "sistema" e não da real capacidade do adversário. Esse argumento de que ninguém do teu clube foi apanhado nas teias da investigação, não colhe. É um argumento demasiado débil. Convido-te a passares por aqui, durante esta semana, e vais ver onde é que surgiu a expressão "fruta". Posso dizer-te que ela já era usada pelos dirigentes leoninos, com a conotação que lhe é atribuída agora pela Maria José Morgado.
E, já agora, vai é comentar para o poiso dos anormais do teu clube. Não és bem vindo aqui...

Paulo Grave disse...

É pá, és mesmo bruto:) Deixa lá o toino em paz. A entrevista é mais do mesmo. Não acrescenta nada de novo. Aquilo que se sabia, e serviu para o Público embolsar umas massas mais, com a venda de jornais. De resto, é como dizes: depois do filme da cornélia, ainda lhe dão um oscar ou um nobel. Só mesmo cá...

Nelson Gonçalves disse...

Gostei de ler a entrevista, apesar de pouco ter acrescentado, mas pelo menos mostra que ele está vivo e nada temeroso, aparentemente.
Quanto ao resto, basta somar 2 + 2, e descobre-se quem é que andava a passear a vaquinha do presepio, quem a levava à discoteca, etc, etc.
Foram esses frustrados, cheios de um odio de morte ao Porto, que lhe fizeram o livro. E o conluio apanha ainda o procurador e a magistrada, se bem leram a entrevista. Cambada de filhos da puta!